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por: Cláudio Antunes Boucinha
 
[00h:23min] 30/06/2008 - Opinião
A História do Rio Grande do Sul: Origens
Uma das grandes querelas que os antigos mantinham sobre a história do Rio Grande do Sul, foi o lugar que as Missões Jesuíticas ocupariam no roteiro histórico geral.
 

Para os teóricos da matriz lusitana, as origens da ocupação da região, foi pelo passo dos portugueses, dos paulistas, dos casais açorianos, e por toda uma vertente que defende a história como história do branco, subentendido como um conceito de “raça”, com suas bases biológicas, evolucionistas, cientificistas, porém, de caráter duvidoso. Nesse sentido, listas e listas de genealogias açorianas foram montadas para enaltecer as raízes portuguesas das famílias, às vezes genealogias não tão rigorosas assim. A matriz lusitana, por décadas, semeou o preconceito em relação aos castelhanos, tidos como filhos de uma história essencialmente cruenta, bem ao contrário dos brasileiros. É verdade que os argentinos ajudaram a construir esse preconceito contra aqueles que julgavam primitivos, bárbaros: os gaúchos. A matriz lusitana também ajudou a criar o mito do índio de Bagé, em contraposição ao índio Sepé Tiaraju, nascido nas Missões espanholas. A matriz espanhola, por outro lado, deixava claro que as missões jesuíticas faziam parte das origens históricas do Rio Grande do Sul, em que a cultura indígena parecia dentro de seu contexto, explicando, em última análise, a presença do gaúcho (huacho). Na matriz espanhola, a influência castelhana era determinante na construção da fronteira, do tipo social existente, nos topônimos, na linguagem, nos costumes. A obra “Tempo e o Vento” estava permeada pela matriz espanhola, daí, talvez, a sua força telúrica, ontológica. Nesse torvelinho, o escravismo foi considerado um escravismo atenuado, mitigado, minorado, fundamentado que era numa suposta história quantitativa, com estatísticas que provavam que os negros eram poucos na província; e, pior, do ponto de vista político, viviam mancomunados com os estancieiros num modelo de democracia racial para o mundo, em que a roda do mate, no galpão, nivelava todas as classes, e, perigosamente, todas as idéias, ágape de um conceito muito particular de democracia. Na democracia racial, índios, negros, gaúchos, estancieiros, todos unidos pelo mesmo ideal: fazer da estância uma instância política modelar. Na verdade, para quem morava no campo, a idéia de uma democracia racial nunca foi evidentemente debatida, e correria o mundo como um produto exclusivamente de letrados da cidade. Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que o escravismo não é como um conta-gotas, com suas medidas, mas como um sistema econômico, jurídico, social, filosófico, que era produto de uma justificação da violência contra os negros, que transpassava fronteiras. Matriz lusitana, matriz espanhola, escravismo no Rio Grande do Sul, democracia racial nas plagas fronteiriças, ainda há muito para se dizer.
 
 

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