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Ano XI - Bagé/RS
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por: Luiz Coronel
 
[00h:32min] 20/11/2009 - Contos
Em queda livre
“Mas vamos aos fatos antes que a raposa entre no mato.”
 
Reprodução JM
 

Dois, somente dois gaúchos nasceram pilchados. O Nico Fagundes e Seu Bebeto Sampaio. Nasceram de bota, espora, chapéu, bombacha e tudo mais. Com uma diferença, Nico nasceu com um lenço Chimango no pescoço.
A partir desses primórdios, se organizam os enredos de um causo sobre o qual há variações apenas nos detalhes.
(De que adianta discutir o pelo do petiço, se não se conhece a estrada?)
Se o Nico é uma estátua que se movimenta por campos e cidades, Seu Bebeto é um homem romântico nas ideias e desbragalado nas atitudes.
Mas vamos aos fatos, antes que a raposa entre no mato.
Certa feita, com pitadas de pimenta, um tal de Justino Martins afirmou que “todo gaúcho sonha ser avião da Varig”.
Seu Sampaio, como também era chamado, levava pelos caminhos “um fiambrezito de sonho”.
- Um dia ainda vou brincar de passarinho – trovava o gaiato, por onde andejasse.
O que se sonha com teimosia acontece, mais dia, menos dia. Durante um sorteio de arremate, o campejano foi contemplado com uma passagem para o Hotel Mediterranée, na Bahia.
Foi cantar o 129 e a passagem estava na guaiaca, aconchavada no entrevero dos pilas.
- O senhor vai?
- Tô indo.
- Hay coragem?
- Quem anda pra frente não teme mau-olhado, jaguatirica ou serpente.
Nem noiva teria tantos aprontes e requintes.
Chegou ao aeroporto que era um cantor de festival nativista. Os pilchedos num apuro domingueiro.
A comitiva que o acompanhou até o Salgado Filho foi das mais representativas, dos Cavaleiros da Paz ao CTG Manotaço, todos paramentados em telúricas galas.
O vôo no Boeing estava apinhado de gente.
- O gadario na mangueira se move com mais entendimento – pensou o passageiro guasca.
Valises, maletas e pertences de veraneio tumultuando o corredor.
A bem da verdade, só havia um lugar razoavelmente folgado. A poltrona de Seu Pericón, um papagaio bom de palpites e incontido nos repentes.
Era ostensivo o desconforto generalizado entre os turistas espremidos, acalorados.
Todas as solicitações endereçadas aos atendentes de bordo entravam por um ouvido e saíam pelo outro, sem eco, resposta ou ressonância.
- Água, moça!
- Um refrigerante, por favor!
- Um lenço, só um lenço!
- Um Correio do Povo, se não for pedir muito!
Elas se cruzaram de lá para cá que nem formiga corredeira.
Seu Pericón não se aguenta nas penas e ordena:
- Mocreia, filha da mãeme traz um whisky!
Em 4 segundos estava ali um Ballantine’s com baldezinho de gelo.
- Sacripanta, bagulho – continuou o papagaio -, umas azeitonas, queijinho picado e tomates secos, para arrodilhar com o trago!
Num toma lá da cá, a bandeja esplendorosa estava à sua frente.
Bebeto Sampaio, nauta de primeira mão, pegou carona no código de atendimento.
- Oh percanta, oh hija de una putana, me alcança uma água quente para o meu chimarrão!
Rápidos no gatilho, chegam dois comissários de bordo parrudos e encorpados, e levam, sem debates, os impropéricos viajores para a cabine de comando, sob o aplauso dos passageiros.
Concedem aos transgressores de vôo alguns equipamentos de salvamento e, sem mais nem menos, abrem uma porta de emergência e os entregam aos cuidados das nuvens e dos ventos.
Em queda livre, lado a lado, homem e pássaro viajam verticalmente numa progressão geométrica de velocidade.
Seu Bebeto ainda teve de ouvir as sarcásticas e sibilinas avaliações do papagaio Pericón:
- Pra quem não tem asas, até que o senhor estava muito saidinho pro meu gosto, Seu Gaudério!
 
ARQUIVO JM
Luiz Coronel - Escritor e publicitário
 
 
 
     
 

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