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por: Cláudio Falcão
 
[23h:08min] 10/03/2010 - Poesia
Até que um dia
Ele já não cozinhava na primeira fervura. Para os mais moços, isso quer dizer que ele era maduro, quase velho.
 

A idade não lhe atrapalhava em quase nada, mas ele ficava meio sem graça quando era chamado de tio pelas gatinhas que pretendia paquerar. Num belo dia, teve sorte. Uma joinha de muitíssimos predicados e pouquíssimo preconceito resolveu lhe dar... hahan...bem... uma chance. Para ele foi meio que tirar na loteria, andava rindo sozinho e, se dessem abertura, contava tudo, nos mínimos detalhes. “Na minha idade ninguém vai acreditar que uma guria anda me querendo”, dizia pros amigos. “Mas eu tenho que contar, senão ninguém vai valorizar”, completava. Mas as mulheres são como as marés, regidas pela lua. O namoro já ia com certo tempo quando aconteceu: Nada do “Chico” descer! A guria estava entre nervosa e esperançosa. Nervosa por prever que não seria nada fácil suportar um filho pequeno e um velho caduco ao mesmo tempo. Esperançosa por ser mulher, é natural, cultivam o instinto da maternidade. E ele, que nunca tinha sentido nada, soube o que era palpitação. Foi no médico, mas não se animou a dizer a razão do nervosismo. As mãos frias em tempo integral assinalavam o estado de ânimo do pobre infeliz. Aquele zumbidinho nos ouvidos não foi suficiente para alertá-lo. E aí, já perto do final da semana, ela telefonou e disse: “Veio!”, apenas isso. Do outro lado da ligação, a voz se sumindo: “Até que um dia”. No velório era aquele falatório. Uma prima dele, que era solteirona, estava escandalizada. “Eu bem que desconfiava que ele era meio pedófilo”, dizia ela baixinho olhando pra menina que dava show de interpretação na categoria “emoção da perda” enquanto o namorado gatão esperava na moto, em frente às capelas. A fila anda...
 
 

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