ANO: 24 | Nº: 6432

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
07/05/2016 João L. Roschildt (Opinião)

O ódio das instituições

Concordo com o jurista Ives Gandra Martins quando afirma que é preferível discutir ideias ao invés de falar de pessoas. Comentar a respeito de indivíduos é enfadonho, desgasta, cansa e pode ser extremamente improdutivo, tendo em vista a complexidade humana e os dissensos gerados.

No entanto, tem-se um dilema crucial. É possível debater ideias sem mencionar seus autores? Não podemos esquecer que aquelas têm origens, autorias e consequências. Teorias não ocupam um espaço astral inescrutável. Elas estão à disposição de quem deseja compreendê-las. E, mesmo que seja óbvio, o conhecimento abstrato produz reflexos na vida cotidiana.

Eis, então, o pensamento e sua defensora. Ou, melhor, as estruturas carcomidas de linguagem e aquela que vocaliza. Em suma, o determinismo e Marcia Tiburi, a badalada "filósofa". Sem entrar nos pormenores que envolvem a denominação "filósofa", é importante destacar que tal "condição" pressupõe uma firme aproximação com a busca da verdade e com o uso da razão.

Recentemente, a referida "filósofa", autora do livro "Como conversar com um fascista", declarou que "quem ensina as pessoas a odiar são as instituições", visto que o ódio não poderia estar atrelado aos indivíduos. In verbis, ela declara que as instituições são a Igreja (a velha culpa da fé!), o Estado ou a televisão. Fico imaginando a hipótese levantada por Tiburi: as instituições fomentam o ódio e automaticamente os indivíduos saem praticando atos fascistas. Quanto determinismo! Mas os indivíduos não têm capacidade racional de discernir o certo e o errado? Movemo-nos "bovinamente"?

Na mesma entrevista concedida à Rádio Brasil Atual e disponível na internet, Tiburi também afirma que para um cachorro entrar em uma briga, há a necessidade de que alguém o incite, o que, por um paralelo fantástico, mostra que os seres humanos só odeiam outros seres humanos por que alguém estimula. Fora outra típica argumentação desesperada: todo esse ódio é fomentado pelo capitalismo (complexo!?).

Serei direto. Não me recordo que a mesma "filósofa" tenha escrito algum tratado sobre a natureza humana. Também me questiono: as instituições são máquinas em modelo "Matrix", ou são compostas por seres humanos? Logo, o ódio não teria seu nascedouro nos indivíduos que podem ou não transportar tal característica para as instituições?
Argumentos e suas consistências. Alguns possuem mais, outros menos, e outros, nenhuma. Mas para não falar só de Tiburi e de sua linha determinista, proponho falar de cachorros.

Convivo com uma cadelinha da raça Pequinês de nome Prenda. No momento da escrita deste artigo, ela ronca. A pauta de sua criação prezou pela convivência harmônica entre seres de mesma ou de diferentes espécies. Pois bem, e o que a natureza canina mostrou ao longo dos anos? Que há um processo de seleção natural: cachorros sentem raiva por outros seres independentemente do fomento dos donos. Nunca foi incitado o ódio. Ela nunca foi estimulada a odiar. Inclusive é repreendida veementemente quando faz algo de errado. Mas a natureza canina indica que uns são mais dóceis, e outros mais bravos. Uns defendem melhor seus territórios, e outros, não. Parece que a teoria de Tiburi sobre a natureza canina está descolada da realidade. Se não consegue compreender cães, imagine seres humanos.

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