ANO: 26 | Nº: 6589

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
14/05/2016 João L. Roschildt (Opinião)

O conservadorismo da ignorância

Recentemente um amigo fez uma solicitação: que o conteúdo da coluna abordasse temas polêmicos. Vi tal sugestão com certo receio, afinal vivemos uma época dominada pelo discurso politicamente correto. A obra "1984", de George Orwell, expressa bem isso.

Na "minha gramática" a palavra polêmica pode significar um assunto demasiadamente controvertido ou algum tema em que a significação real de algo não guarda nenhuma concordância com aquilo que se afirma no discurso público. É como se a realidade fosse alterada para enquadrar desejos particulares, propositais ou não. E isso gera polêmica, afinal privatiza-se o público. Difícil de compreender? Nem tanto!

Pense, por exemplo, nas ideias de Manuela D'Ávila, Jean Wyllys e Maria do Rosário. Pense agora na CUT, MST, MTST e nos partidos de esquerda com a estirpe marxista mais aflorada. Qual o eixo comum no discurso de todos? Dentre tantas coisas, que o Brasil vive uma "onda conservadora" e que isso é necessariamente ruim. Para essa forma de pensar, bom é ser progressista (seja lá o que isso signifique!)

O curioso a respeito disso é que nunca li uma única definição de conservadorismo oriunda desses agentes sociais. Seria interessante saber se eles conhecem as bases e os fundamentos do pensamento conservador: já leram Burke, Tocqueville, Oakeshott, Kirk, Scruton ou Dalrymple? Será que existe efetivamente uma "ofensiva conservadora" destinada à pregação do mal em sociedade?

Vamos a alguns fatos. Como regra geral, o pensamento conservador alinha suas bases em alguns pilares: respeito à tradição; a ideia de que a prudência é um guia para as ações humanas; respeito com a pluralidade democrática; a ideia de que somos imperfeitos; a defesa da lei/liberdade/ordem/propriedade. E tais pressupostos são ruins? Será que algum dos críticos mencionados algum dia debateu com a devida profundidade o que foi apontado? E quanto aos nossos "intelectuais"? O que dizem a respeito?

Assim, os críticos ao conservadorismo acreditam que a propriedade privada pode ser invadida em nome de uma "causa" que traga o "paraíso" na Terra aos seres humanos? Acreditam que um protesto realizado por trinta indivíduos pode interromper o fluxo de trabalhadores no trânsito de forma legítima? Acreditam que um ser humano possa cuspir no rosto de alguém sob a alegação de ter sido ofendido? Acreditam que é um respeito à laicidade inserir um crucifixo no ânus durante algum "protesto feminista"? Quanto refinamento cultural!

Não sei (ou sei? Eis a questão...) se os mencionados críticos acreditam no que foi questionado. Mas eles afirmam que os conservadores são reacionários, autoritários, não respeitam as liberdades individuais e querem impor sua visão de mundo para a sociedade. Discurso descolado do real. Não condiz com a teoria. Basta ler! Aliás, quando os movimentos (ditos) sociais invadem algum ambiente aos gritos e com palavras de ordem, quem quer impor algo a alguém?

Como diz Scruton: somos conservadores quando crianças, rebeldes quando adolescentes e depois de adultos retornamos ao conservadorismo. Alguns permanecem na adolescência, outros não. Mas concordo com os críticos em um aspecto: vivemos uma "onda conservadora" no Brasil. Conservamos a estultice.

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