ANO: 26 | Nº: 6578

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
28/05/2016 João L. Roschildt (Opinião)

Bárbaros e alta cultura


Como diz Roger Scruton, "cultura é uma maneira de transmitir, de geração para geração, o hábito do juízo". Ainda, segundo o filósofo, o hábito de julgar oferta desenvolvimento moral e estabelece as responsabilidades dos seres humanos adultos. E com isso, nada mais lógico defender que há de se ter uma cultura sadia para formar uma sociedade sadia. Do contrário, pereceremos. Abstrato? Nem um pouco concreto? Exemplifico.

Há alguns dias atrás foi noticiado que a youtuber (seja lá o que isso significa!) Kéfera Buchmann empatou com Machado de Assis no número de menções aos autores mais lidos no ano de 2015. Também foi divulgado que 44% da população brasileira não lê e 30% sequer comprou algum livro. As percepções da experiência me indicam que esses dados estão distantes de uma realidade que é muito pior. Reparem que o brasileiro realiza poucas leituras. E das que realiza, boa parte se destina a entender o complexo pensamento adolescente de Buchmann.

Vivemos uma era que cada vez mais valoriza o uso do corpo, estimula precocemente a sexualidade, louva a força física ao invés do intelecto e reforça a deturpação da linguagem culta. Não vivemos? Ouça alguns gêneros musicais bastante conhecidos. Não os cito por questão de segurança. Pode ser classificado como preconceito pelos defensores do politicamente correto. Sem trocadilhos musicais: é favorável viver tranquilo! Mas todos sabem quais são os tipos de músicas que fazem os valores de uma sociedade naufragarem. Vejam que não é espantoso que cada vez mais os jovens se tornem irresponsáveis por seus atos. Isso se dá em face da ausência de uma cultura sadia, que possa estimular sua capacitação moral para lidar com os problemas mundanos. Mesmo que inexistisse a possibilidade de definir o que é alta cultura, sabe-se claramente o que não é.

Acompanhem aqueles que "ocupam" ("invadem" é um termo mais preciso) escolas ou universidades públicas. Eles reivindicam uma melhor educação. Suas pautas são conhecidas. São tão bem conhecidas que não se vê uma única solicitação para aquisição de livros. Sou do tempo do livro, se é que me entendem. Sendo bem irônico: com certeza uma aproximação dos seus alegres instrumentos de percussão com ideologias coletivistas gerarão seres mais autônomos e, consequentemente, a produção de uma cultura que possa explicar os problemas do mundo. Afinal, ninguém aguenta um debate mais profundo sem uma trilha sonora animada.

A sociedade brasileira tem inúmeros desejos. Muitos deles vinculados ao pleno desenvolvimento econômico e político do país. Extinguir a corrupção é desejo "da moda". Thomas Sowell, em "Conquests and cultures: an international history", oferta lição lapidar para que essas vontades sejam alcançadas: sem um grande capital cultural, ou seja, sem uma herança cultural acumulada, é impossível atingir um estágio aceitável de melhorias econômicas e políticas. E tal capital cultural foi atravessado na história das civilizações pela linguagem, religião e alta cultura: o pleno desenvolvimento destas antecede qualquer avanço socioeconômico. Enquanto houver a valorização de uma baixa cultura com a negação de qualquer forma de elevação espiritual, melhorias econômicas e políticas não ocorrerão. É a invasão dos bárbaros. E somos bárbaros de nós mesmos.

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