ANO: 25 | Nº: 6490

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
25/06/2016 João L. Roschildt (Opinião)

sonairaviloB

Tenho insistido que a sociedade atravessa tempos sombrios no campo da cultura. Fatos históricos são desconhecidos e não há vontade de conhecê-los. O relativismo moral faz com que os valores formadores do Ocidente sejam eclipsados. Tolera-se o intolerante em nome da tolerância. Coletivos, levantes, movimentos e ocupações impõem suas visões arbitrárias in nomine da causa igualitária sacrossanta. Para estes últimos, tudo funciona no grito, na hora do espanto e por meio de uma "arte corporal" que visa... bem, não sei o que deseja, afinal usar o órgão excretor como parte de expressão artística é algo sui generis. Opiniões individuais sem fundamento algum são aceitas como algo normal. O uso da razão é mal visto, afinal põe em xeque a "construção irracional" estruturada. A ignorância virou cool. Feio é conhecer. Ainda mais porque é desigual.

Vamos a um exemplo. Leia o seguinte trecho: "A igualdade natural não é o bastante para o povo, que quer uma igualdade absoluta, tanto no público como no doméstico. E depois irá querer a pardocracia, que é a inclinação natural e única, para exterminar depois a classe privilegiada". Na passagem, há uma crítica com relação à igualdade absoluta e uma visão negativa para com um possível governo "pardocrático" (este, na terminologia do autor da frase, seria um governo dos pardos, negros, indígenas e todos os sujeitos miscigenados, por assim dizer). Em suma: o político em questão não quer "pardos" no poder (há uma conotação deveras racial), muito menos a igualdade absoluta e defende os interesses das elites econômicas e sociais. Pergunta-se: quem é o emissor da frase? Qual agente político, vivo ou morto, produziu esta "pérola" política?

Muitos candidatos surgem. Algumas alternativas contemporâneas se mostram passíveis de enquadramento. Mas creio que poucos acertariam na mosca: Simón Bolívar. "Eeeeepa, eeeeepa, eeeeepa...", como diria a saudosa personagem "Vera Verão". Então todo aquele discurso de revolução bolivariana na Venezuela, se esparramando para Equador e Bolívia, recebendo apoio de quase todas as esquerdas latino-americanas (inclui-se aqui os últimos governos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e que significava o socialismo do séc. XXI, era inspirado no autor dessa frase? Sim! Vamos piorar a situação. Marx afirmou que Bolívar era "o mais covarde, brutal e miserável dos canalhas", conforme o livro "Simón Bolívar por Karl Marx" (de autoria do próprio Marx). E o nó foi apertado. Justo. Sufocante.

Como as pessoas defendem algo flagrantemente inconsistente? Somente com a ausência da razão. O ato de obliterar o raciocínio por intermédio da ideologia impede que façamos a análise crítica dos conceitos. Vejam que tudo isso se enquadra na "novilíngua" de Orwell: o sentido original das palavras é removido para impedir o pensamento. Assim, se bolivarianismo é o socialismo do séc. XXI, isso passa a ser verdadeiro, afinal o Estado decidiu que assim seja, mesmo que os fatos impeçam tal vinculação. E os pensamentos passam a ser controlados imperceptivelmente.

Como não lembrar os slogans do "Partido" na obra ficcional "1984" de Orwell? "Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força". Um primor do pensamento totalitário. E bolivarianismo é socialismo? As definições estão invertidas, não é mesmo sonairavilob?

 

 

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