ANO: 25 | Nº: 6335

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
04/04/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Para estar bem a dois, antes é preciso saber ficar só

Quanto sofrimento e energia desperdiçados poderiam ser evitados se nos ensinassem ou nos incentivassem a conhecer a importância e riqueza de nossa própria companhia antes de precisar ter alguém, para brincar, para conversar, organizar o pensamento, cobrar, jogar a culpa de tudo que nos frustra...
Quem não sabe apreciar momentos de solidão busca o outro com um desespero e uma pressa que se não azeda a relação, pelo menos tira muito de seus encantos.
Gostar de si e da própria companhia envolve tempo, energia e vontade de conhecer-se. Quem tem a si mesmo como boa presença e só, certamente é bom parceiro, essa afirmação não é superstição, é sabedoria.
Por exemplo, dificilmente alguém que aprecia estar só por momentos de seu dia vai sobrecarregar o outro com exigências de presença, interrogatórios sobre o que está fazendo e com quem, pois parte do pressuposto que todos necessitam de tempo e espaço para estarem a sós, consigo mesmo, para estar equilibrado, em paz, espontâneo.
Quem não tem a necessidade de companhia, sabe desenvolver seus próprios gostos e quando está com alguém consegue apreciá-la sem obsessão.
Quem gosta da própria companhia também não vive a ilusão egoísta de que todos têm de gostar de si, consegue perceber que nem todas as vivências lhe interessam, e também sabe colocar-se no lugar dos outros, portanto reconhecendo-se como uma não unanimidade.
Um dia chuvoso quando o namorado, marido, melhor amiga, etc. tem outro compromisso pode ser uma verdadeira tortura para muitas pessoas atualmente. Recorrer às redes sociais muitas vezes potencializa o problema, pois dificilmente dirige a questão ao mergulho em si mesmo. Ao contrário, na maioria das vezes mostra uma série sem sentido de cenas de cotidiano como um concurso bizarro sobre quem é mais feliz. Não me refiro à felicidade genuína, mas àquela de propaganda.
O ideal seria aproveitar e fazer algo que acompanhado seria impossível, ou muito diferente. Uma caminhada a sós com seus pensamentos. Escrever a próprio punho uma carta para alguém importante. Ler um livro. Ir a um bar ou restaurante, não para buscar alguém, mas para se perceber em público e só, sem disso vitimizar-se. Ouvir músicas que fizeram parte de sua história. Rever fotos antigas. Organizar seu armário de roupas. Assistir um filme em casa, no cinema, sim, sem companhia, por quê não? Premeditadamente separar um tempinho para não fazer nada, apenas respirar, observar, sentir...
Viajar. Talvez a mais difícil das tarefas, mas excelente, pois põe em evidência o centro da questão, ou seja, se cultivamos nossa própria companhia, aprendemos a estar sós. Dessa forma, conseguiremos enfrentar as dificuldades dos relacionamentos e as pequenas excentricidades que todo mundo tem e são visíveis somente com a convivência.

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