ANO: 25 | Nº: 6383

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
05/04/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

João Gilberto Noll, um andarilho

Semana passada estive aí para buscar algo em minha mansarda; e avaliar a sanidade das obras mais envelhecidas que logo hospitalizo em loja de restauração para conserto e limpeza.
Ao apalpá-las, os dedos descansam em “O cego e a dançarina”, uma coletânea de contos, possível estreia de João Gilberto Noll na literatura (1980); mais adiante “A fúria do corpo”, não se sabe onde estará “Hotel Atlântico”, talvez emprestada e que não volta ao ninho. No dia seguinte, quando volto para a metrópole, surpreende-me a morte do autor daquelas produções. Óbito solitário, como sua opção de vida.
Quando me transferi para Porto Alegre, adotou-me um grupo de amigos que se reúnia, aos sábados, na entrada da Galeria Chaves, ficando a mirar o passeio na rua da Praia; outrora, todos firmes e ágeis, se deslocavam ao fundo da área para bebericar café. Tempo passado, uns subiram para as paragens repousantes; e os remanescentes, já cheios de dores e cansaços, entenderam mudar o ereto para o sentado num bar do canto.
O ambiente era agradável, tanto que uma parte decidiu prolongar o convívio nas manhãs de domingo, desta vez no McDonald’s, frontal à Praça da Alfândega. Lá topei com João Gilberto Noll.
Estranhava-se aquele freguês arredio, às vezes com vestes surradas, sapatos rotos, de gorro ou boné, que ocupava o assento extremo do balcão, sempre a ler um periódico, vezes somente a página literária; ficava ali quieto e depois desaparecia pelas ruas e praças, sempre com a gazeta sob o braço, andando a esmo. Até que, com coragem, o interpelei, e ele, comedido, aceitou a conversa sobre escritores e estilos.
Se em férias no Rio ou São Paulo, tenho o hábito de comprar os suplementos literários, e quando deparava algo sobre João enviava o exemplar para a rua Fernando Machado, onde morava. Grato, respondeu. Num desses ensejos achei longo artigo do crítico José Castello, elegendo Noll como o melhor escritor do Rio Grande. A derradeira vez que o vi aconteceu há poucas semanas, quando esperava confrades na cafeteria. Lá estava ele e seu jornal. Saiu, sem papo, arredio, solitário.
É paradoxo que, elogiado pela crítica brasileira, ganhador de cinco Prêmios Jabuti, conferencista residente em Berkeley, Bellagio e outros locais, traduzido para o inglês, espanhol e previsto para o italiano, fosse aqui tão pouco incensado. Sobrevivia com os rendimentos de seus livros e eventuais oficinas que ministrava, além das bolsas de professor visitante. Alguns de seus trabalhos foram levados ao cinema. Tive a ventura de ser convidado quando lançou sua derradeira obra no Studio Clio. Ali, à moda dos antigos autores ingleses, leu e debateu trechos do último escrito e concedeu autógrafo.
Como comentou Daniel Galera, o que afeta em sua prosa “é a constância de suas indagações íntimas e metafísicas, a ânsia de converter em palavras o embate entre a introspecção e o mundo que, tragicamente parece estar sempre lá fora”. Costumava chamar o personagem de seus livros de “este homem”, que sempre vagava angustiado, em busca da transcendência e do afeto. Sua escrita, dolorida, trazia temas pós-modernos como a homossexualidade, a condição social ou a questão das minorias. Contava que seus textos iniciavam sem prever o que viria adiante, quando, então, apareciam situações e dramas, sempre tratados com linguagem seca, cortante, econômica; os atores de suas narrativas, mais das vezes, sequer tinham um nome ou pista de identificação.
Ficam dele, dezoito livros em herança. Era escritor de exceção.
Não se verá mais João perambulando. De cachecol e boné.

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