ANO: 25 | Nº: 6378

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
06/04/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Infelicidades II

Meik Wiking, presidente do Happiness Research Institute, organização que pesquisa a felicidade, definiu: "é mais difícil ser infeliz numa sociedade que é feliz. Temos a tendência de nos compararmos constantemente com outros e se nos sentirmos miseráveis ao mesmo tempo que estamos rodeados de pessoas realizadas, o contraste é maior". Com esta frase, o pesquisador dinamarquês tentava explicar ao jornal português Observador as razões pelas quais a Dinamarca, considerada um dos países mais felizes do mundo, apresenta uma elevada taxa de suicídios. Aquela afirmação segue a mesma linha do estudo "Dark Contrasts: the paradox of high rates of suicide in happy places", de 2011, que aponta que pessoas descontentes em um lugar feliz e que veem seu bem-estar em comparação com o de outros, podem aumentar o risco de suicídio.

A despeito da impossibilidade fática de medir a felicidade e de todos os esforços na área da filosofia para tentar conceituar a mesma (sem grandes consensos), a ONU, através da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável, resolveu estabelecer o grau de felicidade dos países através de uma equação. Esta leva em consideração seis fatores: renda per capita, apoio comunitário, expectativa de vida, liberdade para fazer as escolhas da vida, generosidade e percepção da corrupção. Ao verificar os itens descritos e pensar no Brasil, poderíamos imaginar que a colocação no ranking não seria das melhores. Ainda mais se levarmos em consideração os resultados educacionais em testes internacionais, nosso IDH, índice de liberdade econômica e número de homicídios anuais. Mas, de acordo com a ONU, o Brasil é o 22º país mais feliz do mundo. Somos felizes e não sabemos.

Como recentemente estive em Portugal, por 10 dias e visitando 14 cidades, fui verificar sua colocação: 89º lugar. Este belo, aprazível, educado, calmo, seguro, simples e aconchegante país, que praticamente lhe convida para um retorno a todo instante, é mais triste que o Brasil. Deve ser a falta de um grande Carnaval! Ou do funk! Ou de algo que não esteja nos critérios da ONU... estranho!

Ao ver estas informações, lembrei-me da república bolivariana da Venezuela e seu verde (digo, Maduro) comandante. No ano de 2013, já com elevados índices inflacionários e com crises de abastecimentos de itens básicos, Maduro (que ainda não estava próximo de cair do pé) decidiu criar o vice-ministério da Suprema Felicidade Social do Povo Venezuelano. O objetivo desta pasta seria cuidar das ações assistencialistas do governo. E qual a posição atual da Venezuela no ranking da felicidade? Aqueles que acompanham os noticiários não acreditam na 82ª posição que exsurge (era 20º lugar em 2013). Assim, a Venezuela é mais feliz que Portugal. Utilizando-se de Hamlet, "há algo de podre no Reino da Dinamarca".

Voltando a Wiking, o mesmo afirma que a comparação com a felicidade alheia pode trazer enorme infelicidade. Logo, atesta que as redes sociais podem ser muito nocivas "porque são um constante lembrete das boas notícias que estão a acontecer... na vida dos outros". Em suma, a felicidade alheia incomoda aqueles que são verdadeiros miseráveis morais. Portanto, cuidado! Sua feliz rede social pode promover verdadeiras campanhas difamatórias contra a sua pessoa, afinal, ser infeliz no Brasil é algo bastante difícil.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...