ANO: 25 | Nº: 6398

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
08/04/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Inimigo na trincheira

Nas reflexões que muitos juristas fazem acerca do Direito, levantam-se questionamentos sobre os limites das normas. Sobre quais as condutas humanas que podem ser reguladas ou limitadas pelo regramento jurídico. Neste sentido, é predominante o entendimento de que o direito só pode regular condutas humanas que interferem ou repercutem em outras pessoas.

            Todavia, tal entendimento exige uma reflexão complementar sobre a existência (ou não) de alguma conduta humana que não afete outras pessoas. Neste particular, a convergência percebida na reflexão inicial, não se repete.

            Mesmo naquelas condutas aparentemente neutras e inofensivas, a possibilidade de afetar outras pessoas não é, de modo algum, descartável, sobretudo nestes tempos de extrema e crescente sensibilidade, onde sempre tem alguém disposto a questionar ou contestar as atitudes dos outros. A “cosa” está tão difícil hoje que se você declarar que odeia cebola, despertará a ira dos militantes da Sociedade Protetora dos Vegetais.

            Anos atrás, logo depois da condenação da madrasta da menina Isabella Nardoni, um artigo de Sérgio Rodrigues abordou a questão do peso negativo que carrega a palavra “madrasta”. Concluiu o artigo com a cruel constatação de que, apesar de todos os esforços dos politicamente corretos, a condenação de Anna Carolina Jatobá atrasou em, pelo menos, cinquenta anos a luta contra a má-fama das madrastas. Passado o tempo, eu acrescentaria, mais cruelmente ainda, que a provável condenação da madrasta do menino Bernardo vai acrescentar outro tanto nesta contagem.

            Isso quer dizer que todas as madrastas são más? Isso quer dizer a madrasta da Isabella e a do Bernardo tinham a intenção de atingir outras pessoas além de suas vítimas? A resposta é “não” para ambas perguntas, mas é óbvio que a conduta delas acabou reforçando o preconceito contra todas as madrastas, incluindo a maioria que não é merecedora de tal fama.

            E assim caminha a humanidade! Quando tudo parece ir bem na luta contra um preconceito que atinge determinado grupamento humano, algum indivíduo deste grupo põe tudo a perder com uma atitude isolada e infeliz, que reacende o preconceito e reforça o estereótipo que afeta um número incalculável de pessoas.

            Basta a revelação de um padre ou pastor pedófilo e/ou tarado para que todos os outros sofram com isso. Da mesma forma, ocorre com a luta das feministas toda vez que uma mulher faz algo que reforce o machismo contra o qual elas tanto lutam. E nem precisa reforçar, basta se submeter, aceitar ou simplesmente não se insurgir contra atitudes machistas que lhe afetem.

            E podemos estender este mesmo raciocínio para os muçulmanos,  judeus, japoneses, argentinos, portugueses, mexicanos, brasileiros, baianos, cariocas, gaúchos, empresários, ricos, pobres, presidiários, banqueiros etc etc etc, todos rotulados, generalizados, tratados com desdém por outros, por conta de estereótipos históricos nem sempre justos ou justificados. Como todos nós fazemos parte de um ou outro destes grupos é óbvio que qualquer atitude que tomemos pode afetar o grupo como um todo mesmo que não tenhamos agido com esta intenção.

            Por tudo isso, é muito difícil acreditar que exista alguma conduta humana que não repercuta nos outros. Tão difícil quanto acreditar que na mesma trincheira que lutamos não haja inimigo que possa botar tudo a perder.

 

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