ANO: 25 | Nº: 6361
10/04/2017 Caderno Minuano Saúde

Vivendo bem com a esclerose múltipla

Foto: Antônio Rocha

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Uma doença pouco conhecida e que afeta muitas pessoas é a esclerose múltipla. É uma doença do sistema imunológico que pode afetar alguma parte do sistema nervoso central, ou seja, cérebro, cerebelo, tronco cerebral e medula espinhal.

De acordo com o médico neurologista, especialista em esclerose múltipla, Jefferson Becker, não se sabe exatamente a causa, mas já está bem definido que o paciente precisa ter uma predisposição genética, associado a um ou mais fatores ambientais que serviriam como um gatilho para desencadear a doença. “Essa junção de fatores faz com que o sistema imunológico passe a atacar o sistema nervoso do paciente. Há casos mais leves (com poucos surtos) ou mais graves (com várias crises)”, explica.

Nesta edição, o médico vai explicar a doença e a paciente Carolina Muza Borba conta sua história de vida e superação, destacando como viver bem e fazendo tudo normalmente.

 

Página 2 e 3 – Superando obstáculos e procurando ajuda

O especialista Jefferson Becker conta que os surtos (crises da doença) podem ser um único ao longo de toda a vida ou diversos, mesmo num curto espaço de tempo. “Além disso, as manifestações clínicas são muito variadas, pois dependem da parte do sistema nervoso que foi afetada. Há os casos progressivos, em que não existem surtos, sendo que a doença se manifesta com uma piora lentamente e progressiva (ao longo de anos), especialmente, da capacidade de caminhar. Com isso, podemos entender porque não há um único paciente igual a outro”, conta.

A média de idade de aparecimento da doença é por volta dos 30 anos, ocorrendo, principalmente, entre os 20 e os 40 anos, conforme destaca Becker. “Ela é extremamente rara abaixo dos 12 anos e acima dos 60”, informa o neurologista.

Os sintomas dependem do local afetado, sendo que as mais comuns são alterações sensitivas (formigamento ou dormência, principalmente) ou motoras (fraqueza), que atingem um braço ou uma perna, todo um lado do corpo ou apenas as pernas, conforme salienta o profissional. “Além disso, pode haver um quadro de neurite óptica (inflamação do nervo do olho) que se caracteriza por borramento visual, associado à dor a mobilização ocular. Ainda pode haver problema de coordenação, falta de equilíbrio, dificuldade para controlar a urina, vertigem, paralisia de algum nervo na face”, completa.

O médico destaca que a identificação da doença se dá quando qualquer paciente jovem apresente algum déficit neurológico, que dure mais de 24h, especialmente os acima descritos. Ele deve fazer uma consulta neurológica, para investigar a doença. “O principal exame a ser realizado é a ressonância magnética do crânio e, se necessário, da coluna cervical e torácica, para avaliar a medula espinhal”, relata.

 

Página 3 – Como é a vida com a esclerose

A administradora e gestora ambiental Carolina Muza Borba, 28 anos, convive há dois anos com a doença. Segundo a jovem, a sua vida é normal. “Eu tive, aos 15 anos, Dermatomiosite, que causa paralisia muscular, dor, inchaço e vermelhidão. Fiz diversos exames e apenas em Porto Alegre acharam a causa, passei por um tratamento de dois meses no hospital, mas não ficava internada, e não conseguia caminhar. Tive que ficar dois anos sem fazer esforço, sem fazer exercícios, mas estudei e tive uma vida normal”, relata.

Carolina enfatiza que aos 26 anos começou a sentir dormência nas pernas e costelas, formigamentos e visão embaçada. “Consultei um clínico, que não soube dizer o que era. Pensei que era dermatomiosite novamente. Suspeitaram estresse e tomei remédio para isso. Então, fui a um neurologista que me encaminhou, após uma ressonância, a um especialista em Porto Alegre, o médico Jefferson Becker”, ressaltou a administradora.

Como estava em surto, Carolina foi submetida a um tratamento de pulsoterapia. “Fiquei cinco dias fazendo o tratamento, que parece uma quimioterapia, mas não tão invasiva, e após, fui medicada para fazer um tratamento por tempo indeterminado”, completou a gestora ambiental.

Carolina pede que as pessoas que sintam sintomas anormais procurem ajuda. “Não é muito fácil de identificar a doença, porém não é o fim do mundo, faz um ano que não tenho crise, procurem ajuda e especialistas, porque tenho minha vida normal, saio, bebo socialmente, como de tudo, trabalho e faço atividades”, conclui.

 

Página 4 - Principais tratamentos

O doutor Becker salienta que, atualmente, há diversos tratamentos disponíveis no mundo, sendo que, praticamente, todos já estão disponíveis no Brasil, mesmo pelo SUS. “O tratamento pode ser dividido em três grupos: o do surto (normalmente com corticoide IV ou, em alguns casos mais graves, plasmaferese ou imunoglobulina IV), prevenção do surto (esses são os principais tratamentos; há vários tratamentos que podem ser injetáveis no músculo ou subcutâneos, orais ou intravenosos) e para melhora de uma eventual sequela (especialmente, para melhorar a marcha e uma eventual rigidez muscular excessiva)”, complementa.

Becker diz ainda que é importante ressaltar, nesse momento, que há menos de 15 dias foi aprovado, nos Estados Unidos, o primeiro tratamento para os pacientes com a doença progressiva desde o início que representam 15% dos casos.

“Há casos e casos para se conviver com a doença. Infelizmente, há os mais incapacitantes. Porém, com o surgimento de novos tratamentos, cada vez há mais pacientes que levam vida completamente normal, ou muito próximo a isso, fazendo, obviamente, um tratamento crônico e de longo prazo”, enfatiza o médico.

Finalizando, o médico pondera que há várias novas pesquisas, inclusive no Brasil. “Lá no Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), temos várias pesquisas em andamento e algumas para começar em breve”, ressalta.

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