ANO: 26 | Nº: 6491

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
12/04/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Cidade)

Dois anos sem Paulo Brossard

Hoje fecha o biênio do falecimento de Paulo Brossard.

Num domingo de chuva a eça do tribuno descansava no suntuoso salão do Palácio Piratini para ser pranteado pelos rio-grandenses; pelos políticos que honrara; pelos parlamentares que nele tiveram um modelo; pelas autoridades, como o então vice-presidente da República, o governador e secretários; pelos advogados e juízes que enobrecera. Pelos amigos que o apreciavam. E familiares que amava.

Muitas qualidades distinguem o ilustre conterrâneo e a erudição não era apenas uma delas; tinha a polidez de plenipotenciário, como a dos embaixadores que ombreavam reis e subscreviam tratados que amainavam guerras e disputas; a sobriedade de seu imenso saber não permitia as galas da vaidade nem a soberba da apoteose; sem presunção, não se bazofiava de uma cultura de exceção; ou se jactava dos discursos que enchiam os plenários congressuais, anátemas que, tranquilo, bradava contra a força e a opressão, voz que acanhava a violência e apoucava a injustiça; e acórdãos que sublimavam as letras constitucionais e que robusteciam a legalidade e o interesse público.

O que todos apreciavam em Brossard era o comedimento e a moderação dos juízos, nunca altaneiros ou presunçosos, mas prudentes. Respeitosos. Debatia a altivez de seus princípios sem arranhar a dignidade do oponente; ou aviltar o brio com que polemizava. Atento, não faltava aos amigos ou à terra natal quando preciso. Sem sobranceria ou alarde, não ajaezava sua discrição.

Deputado em momentos cinzentos foi fiel ao adversário perseguido ou ao invectivado; ministro de dois poderes deixou currículo de realizações concretas em prol da segurança e da justiça; intelectual, transitava pela literatura e pela história com a naturalidade dos sábios; político, não rejeitava refregas quando se cuidavam direitos, a liberdade, o respeito ao ser humano e à lei.

Cidadão, seu nome e fama matizaram a bajeensidade.

A homenagem à memória de Paulo Brossard de Souza Pinto não pode desfazer-se na lágrima perene de seus parentes; na vibração de um discurso; ou na fugaz prédica escrita; nem na leitura de suas lições jurídicas; ou na presença física dos haveres que teve e para onde retornava para aspirar o cheiro da campanha e sentir a rispidez do minuano; nem um busto na Santa Casa, ente que tanto ajudou e que lhe dedicava carinho e reconhecimento pela ajuda prestada; nem na saudade de seus clientes e do grupo que se juntava nas churrascarias ou na intimidade da estância para comungar fraternidade e gratidão, bebericando na liturgia de sua sapiência e até de sua jocosidade.

Brossard foi o bajeense que esteve no Supremo Tribunal Federal, pois Fernando Luis Osório, ali também magistrado, apenas teve parto neste solo, sem convívio ou atuação.

O ministro rezava um mantra quando me encontrava: ou seja, que obtivesse mais dados sobre "um médico, Cândido Borba", seu ancestral, e também avoengo de minha sogra.

É missão que devo à sua lembrança.

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