ANO: 25 | Nº: 6377

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
13/04/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Diabólicos

Se a construção de uma ideia minimamente complexa dependesse de aceitação popular, "youtubers" poderiam ser classificados como novos intelectuais. Certa feita, Thomas Sowell disse que o grande problema dos intelectuais é que suas ideias e atitudes não aguentam o escrutínio da razão. E complementou: "se eles tivessem algumas poucas ideias loucas por si mesmos, e ficasse entre eles, quem se importaria?".

De acordo com os grandes espaços midiáticos nacionais, Leandro Karnal é um representante da intelectualidade. No Brasil pensa-se que um intelectual seja a encarnação de uma proliferação de raciocínios apurados com enorme sabedoria. E uma forma de medir esta intelectualidade, de acordo com a mídia, é através do número de visualizações no "youtube" ou pelo número de seguidores nas redes sociais. Basta ver a edição de 05/10/2016 da revista IstoÉ que lista Karnal, Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho como a nova nata cerebral pátria.

Qualquer leitura desses "pensadores" mostra que há uma carência de profundidade nas temáticas abordadas. Suas frases de efeito, construídas com conceitos fluidos e desvinculados de uma verdadeira significação, produzem enormes estragos cerebrais naqueles que os seguem. Por exemplo, em recente entrevista a IstoÉ Online, ao ser questionado se o desejo da felicidade era algo constante, Karnal disse: "Não! Ele é um projeto essencialmente burguês do século XIX. [...] hoje, felicidade é um grande projeto de classe média [...] que deve apresentar uma vida integral, plena, com saúde, estrutura familiar, bem sucedida e cheia de controles". Com isso, o grande intelectual tupiniquim conseguiu dizer que as lições de Aristóteles acerca da felicidade são verdadeiros disparates, fez da noção de felicidade uma luta de classes no melhor estilo de Marx e conseguiu criticar valores fundamentais para ser... feliz!

Mas Karnal possui chancela pública para afirmar sandices. Em entrevista para o jornal O Globo, declarou que "a nossa sociedade é tão indignada com a corrupção porque quase todos nós somos corruptos. A quebra da norma pelo outro mostra o espaço do meu desejo de quebrar também. Se não, não me incomodaria tanto". Ou seja, para ele a repulsa perante a corrupção e a afetação pelo rompimento das regras demonstra o quanto desejamos praticar tais ações nocivas. Há alguma lógica nisso? Como toleramos que indivíduos deste naipe estejam revestidos pela aura sacrossanta da intelectualidade?

Por falar em algo religioso, na mesma entrevista de O Globo, Karnal afirmou que "nós temos uma sedução profunda pelo mal. De longe o demônio é o anjo mais interessante. [...] Nós gostamos de quem quebra a regra.[...] Nós gostamos do pecador. E, aliás, Deus também no cristianismo parece ter uma predileção pelo pecador". Como refutar essa inteligência "enkarnada"? Quais são as evidências empíricas de suas declarações? Como afirmar para um "pensador" que acredita em uma inclinação dos indivíduos para o pecado, que a humanidade sobrevive exatamente por negar o mal e por seguir regras, condições de possibilidade para a existência harmônica e relativamente pacífica? Talvez George Orwell tenha errado no diagnóstico quando disse que "algumas ideias são tão estúpidas que somente intelectuais podem acreditar nelas". E quando esses possuem inúmeros seguidores?

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