ANO: 25 | Nº: 6280

Fernando Risch

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Escritor
14/04/2017 Fernando Risch (Opinião)

Combatendo racismo com demagogia e machismo

Na última quarta-feira, o Palmeiras enfrentou o Peñarol pela Libertadores da América no Allianz Parque. Uma partida que, na lógica do futebol, já teria gás suficiente para uma combustão em campo, no embate de dois gigantes do futebol mundial, possuía um combustível a mais pronto para queimar: Felipe Melo.

            O volante recém-chegado no time paulista tem um histórico invejável de polêmicas. Conhecido por sua violência em campo – a qual ele desmente - Felipe Melo mostrou muita personalidade em suas entrevistas, não caindo no senso comum habitual do jogador medíocre com um “O importante é buscar os três pontos”. Na sua apresentação, entre muitas acusações e rebatidas, ele disse: “Se tiver que dar tapa na cara de uruguaio, vou dar”. Antes da partida contra o Peñarol, o jogador desmentiu, dizendo que era no sentido figurado, que nunca havia dado um tapa na cara de ninguém e não seria este o momento, tudo para não jogar mais gasolina em um jogo quente.

            Durante a partida, mais polêmica e confusão, como era esperado que fosse. O Palmeiras venceu com um gol no último segundo e com muita reclamação da arbitragem dos dois lados. Após o jogo, a bomba: Felipe Melo acusa o jogador uruguaio Gastón Rodríguez de chamá-lo de “macaco”. A acusação é gravíssima, de um crime desprezível. Admira-se a coragem de Felipe Melo em levantar a voz contra a barbárie e o que se esperava era que ele fosse a uma delegacia registrar o crime. Mas não. Como sempre polêmico e sem falar o habitual, Felipe Melo atacou: “Acho que ele (jogador) deve ter algum problema, a mulher dele já teve ter traído ele com algum negão, alguma coisa assim”.

            É compreensível que a vítima reaja de diversas formas quando atacada, mas Felipe Melo cometeu um erro. Ao falar, em tom jocoso, de uma suposta traição da mulher de Gastón Rodríguez, ele não ataca o agressor racista, ataca a mulher dele, que não tem nada que ver. Perceba, falo de “mulher do jogador”, porque sequer sei seu nome ou se é que exista (não sei se Gastón é casado). Mas a intenção é tipificar o atleta uruguaio como “corno”, caracterizando como uma possível ofensa. Assim, a mulher fica em segundo plano, como algo irrisório, inexpressivo, sem sentimentos, um simulacro de ser humano, cuja única capacidade seja copular com o marido e supostamente traí-lo, e, assim, se pode falar à vontade, pois não se trata de alguém, mas de algo.

Falar que Gastón Rodríguez merece ouvir isso pelo crime que cometeu não faz sentido. É como dizer que sua mulher é sua propriedade, algo inanimado, inútil, que serve apenas de cabide de um homem e, ao atacar esse objeto, estaria atacando o jogador. Isso é machismo e também não pode ser tolerado. Um tipo de machismo tão intrínseco na sociedade, que a maioria não percebe que ele exista. Ser vítima de um crime não lhe dá o direito de agredir alguém gratuitamente.

            Quando questionado se iria fazer a denúncia pelo racismo, Felipe Melo respondeu: "Não vou denunciar nada. Acho que isso excede ao futebol”. Novamente, respeita-se a vontade da vítima. Ninguém pode obrigá-lo a ir a uma delegacia. O que entristece é que Felipe não leve adiante algo muito sério, uma acusação grave, e tente combate-la com uma simples frase demagógica e machista, jogada ao ar como um revanchismo barato a algo muito sério. A mim, resta lamentar que este caso morra impune e com a mancha de um contra-ataque desnecessário contra uma mulher que sequer sabemos que exista, mas que nada tinha a ver com a história, atingindo, assim, todas as mulheres, pondo-as na prateleira dos objetos, e o que faz com que Felipe Melo, mesmo como vítima, caia na vala comum dos agressores.

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