ANO: 25 | Nº: 6401

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
14/04/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Tutelando a vontade popular

Pela vontade popular, Barrabás foi libertado e Cristo foi condenado, na data que os cristãos relembram hoje. Pela vontade popular o gaúcho “machista” e “agressor de mulheres”, Marcos Harter, não teria sido eliminado do BBB 17 encerrado ontem. Pela vontade popular, Dilma ainda seria a presidente da República, apesar das pedaladas, das mentiras durante a campanha eleitoral, do rombo nas contas públicas e da incapacidade de controlar a corrupção que tomou conta do seu governo.

            Todavia, nos casos mais recentes, a decisão da maioria foi revertida por causa de uma espécie de controle externo da vontade popular. Se isso existisse na Judéia, há mais ou menos dois mil anos, a profecia poderia não ter se cumprido e a história da humanidade poderia ter sido bem diferente.

            Não vou especular sobre a história da humanidade caso Cristo não tivesse sido condenado, mas não posso deixar de observar que, passados quase dois milênios, ainda pairam muitas dúvidas sobre a capacidade de decidir da população. Infelizmente ainda é muito comum as pessoas se deixarem levar por suas paixões, comprometendo o discernimento necessário para a tomada de decisões, sobretudo aquelas que afetam a coletividade. O comportamento de massa, o efeito manada, normalmente orquestrado por mal intencionados, costuma não ser um bom conselheiro e isso acabou justificando a existência destas ferramentas institucionais que permitem interferir na vontade popular ou, simplesmente, ignorá-la.

            A lei da ficha limpa, por exemplo, foi idealizada nesse sentido, mas, na prática, não se revelou muito eficaz visto que muitos “fichas sujas” ainda continuam se candidatando. Porém se ela não existisse, provavelmente teríamos ainda mais corruptos governando o País. Graças às supostas “regras do jogo”, a produção do programa BBB 17 excluiu da disputa o gaúcho Marcos Harter, mas a julgar pela votação do último paredão antes da eliminação dele, se dependesse da vontade dos telespectadores ele provavelmente teria permanecido no jogo.

            Até quando precisaremos tutelar a vontade popular? Não seria melhor deixar o povo “errar” livremente e arcar com as consequências de seus atos?

            Neste contexto, dizer que “a voz do povo é a voz de Deus” parece soar até como uma heresia, mas, por outro lado, também não dá para negar o seu acerto. A voz do povo libertou Barrabás e permitiu que a profecia se cumprisse. E o que teria ocorrido caso a voz do povo fosse acatada e o gaúcho Marcos tivesse permanecido no BBB 17? E se a Dilma tivesse continuado a governar o País? 

            Agora, não adianta chorar sobre o leite derramado nem ficar especulando sobre um suposto presente ou futuro caso pudéssemos reverter o passado, mas confesso que, por influência destes últimos acontecimentos, já confiei mais na maturidade e no discernimento das decisões populares.

           

            

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