ANO: 24 | Nº: 6432

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
25/04/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Baleia Azul, automutilação e os 13 porquês

Poucas coisas chocam e aterrorizam mais que a morte de pessoas jovens, crianças e adolescentes. Em se tratando da escolha por dar fim à própria vida, o suicídio, nesta idade, é ainda mais perturbador, assustador e alarmante. Um verdadeiro pesadelo.

Nos últimos tempos este assunto tem vindo à tona tanto pelo aumento dos casos de automutilação e depressão, que podem ir de leves e moderados a graves, quanto pela notoriedade que o jogo Baleia Azul obteve a partir das redes sociais. Tal jogo exige o cumprimento de 50 desafios, sob pena de, se não os cumprir, o jogador ser executado pelo grupo que o criou, sendo que o último desafio seria o suicídio. Nesse panorama temos ainda a série "13 Reasons Why", que desvenda através do olhar da própria suicida, uma menina de 17 anos, os motivos pelos quais desacreditou da vida.

Estamos a perguntar por que esse assunto chama tanto a atenção? Por que tantos adolescentes aderem a modelos de comportamento tão perigosos ou sem futuro?

A resposta não é nada simples e passa pelo entendimento do fenômeno psicológico e social do adolescer nos tempos atuais. Tal processo envolve mudanças no corpo, na mente, no comportamento, na família, no grupo de amigos ou falta dele e na sobrecarga que todos esses aspectos exercem sobre o jovem. Este peso emocional pode ser maior que sua maturidade psicológica, ainda muito infantil, pode dar conta. Agravando ainda mais toda essa pressão, existe uma liberdade, quantidade de informação e conectividade que nenhuma outra geração jamais sonhou ter. Somado a isso, temos poucos momentos em família, pouco tempo de qualidade juntos e muito pouco ou nada de experiências de autodescoberta autênticas e enriquecedoras da autoestima. Atualmente, ouvimos cada vez mais crianças relatarem que sentem tédio. Ora, sabemos que o vazio existencial está relacionado à depressão e a escolhas perigosas por emoções como automutilação, drogas e até a morte.

Por outro lado, a adolescência sempre foi um período de intensidade. Mesmo em épocas remotas, moderação nunca foi característica dessa fase onde tudo é percebido de modo muito intenso. Sendo assim, ter alguém para se identificar, desabafar e compartilhar é tão importante. Dessa forma, podemos compreender por que a família (apesar da rebeldia e de todo esforço para provar o contrário) e os amigos são tão significativos nessa fase da vida. Este aspecto ajuda a compreender por que o adolescente muitas vezes cede a exigências do grupo, inclusive abusivas ou perigosas, pois precisa da sua turma para sentir-se pertencente a algo e, também, que está rebelando-se à família, ou seja, está se tornando um indivíduo.

Sendo assim, todos esses motivos exigem de nós, adultos, a saída da zona de conforto em busca de informação e troca de ideias com outros adultos e com os próprios adolescentes. Conversar com eles sobre os temas abaixo, saber o que pensam e já sentiram a respeito é um imperativo e pretexto para estarmos mais perto.

Como sempre, conhecimento e proximidade afetiva para escutar podem ser preventivos de graves problemas em qualquer idade.

Conversar sobre:

Automutilação- está mais relacionada a sentir dor física para aplacar as dores da alma, que podem tanto ser normais desta fase da vida ou indicadoras de algo mais sério. O assim chamado "código de barras", por deixar marcas  que se assemelham ao código tem sido bastante difundido entre os adolescentes como receita para suportar momentos difíceis emocionalmente.

13 Reasons Why- a série do Netflix é corajosa por mostrar cenas fortes e trazer menos clichês e mais verdades sobre o universo adolescente atual, suas crueldades e dilemas, que nem sempre os adultos enxergam ou querem ver. Apesar de trazer imagens perturbadoras, sua maior virtude é desconstruir o estereótipo do jovem depressivo originário de família problemática, chamar atenção para o fato de que os pedidos de socorro de um suicida em potencial não são tão óbvios, além do grande papel da escola nos sofrimentos dessa etapa da vida, incluindo aqui o bullying e a vista grossa que certas instituições fazem para esse gravíssimo problema que apresenta a cada ano tantos casos de depressão.

Baleia Azul- autoridades em crimes de internet garantem que não passa de boato para perturbar. Seria uma bobagem se o alvo não fosse mentes em formação, imaturas e/ou sem supervisão de adultos. Longe dos critérios de senso crítico e maturidade, dependendo do momento de vida e situação emocional, pode ser levado a sério, trazendo graves consequências. Deve ser esmiuçado sem pressa, suas etapas não sobrevivem a um julgamento crítico e de valores.

Depressão/suicídio- epidemia mundial em qualquer idade. Depressão é sofrimento psíquico, é doença, nem sempre tem causa evidente, não é culpa de ninguém, nem sinal de falta do que fazer ou fraqueza. Exige cada vez mais conhecimento de pais e educadores para conhecer seus sinais e diferenciá-los daqueles típicos da adolescência e dar atenção necessária, incluindo acolhida afetiva, compreensão e tratamentos médicos e psicológicos adequados.

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