ANO: 25 | Nº: 6356

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
27/04/2017 João L. Roschildt (Opinião)

A douta ignorância e seus inimigos

O cardeal e filósofo Nicolau de Cusa (1401-1464) deixou registrado no livro "A douta ignorância" a noção de que saber o não-saber é parte fundamental para a obtenção do conhecimento. Em suma, compreender as limitações cognitivas é o mecanismo que estimula a busca pelo conhecimento. Mas, no mundo contemporâneo, a douta ignorância ganhou novos contornos. Por exemplo, o uso da razão pode ser considerado uma heresia. Basta verificar como, em alguns debates, rapidamente argumentos racionais são sumariamente dispensados. O incrível é que a referida dispensa, muitas vezes, é realizada por 'intelectuais" com chancela universitária.

Mas qual é a consequência para os que se opõem a isso? Uma espécie de ostracismo, afinal, ser contra algumas sacralidades intelectuais é um crime hediondo. Roger Scruton, em entrevista para a The Spectator, em 2015, relatou que a única forma de escrever a verdade é ser um filósofo desvinculado de instituições. Assim, nos bancos acadêmicos, não estar de acordo com teorias que são maquiagens de ativismos políticos (pense na "pedagogia do oprimido" ou na herança marxista), mesmo que se busque a verdade, torna-se praticamente impossível.

Na esteira do que foi dito, em 20/04/2017, a Folha de São Paulo publicou uma entrevista com o matemático Nuno Crato, ex-ministro da Educação em Portugal (2011-2015). Nuno foi o responsável pela reforma no ensino português que melhorou os resultados no Pisa (exame internacional de ensino) em ciências, leitura e matemática. Sua gestão atacou algumas "vacas sagradas": a de que os alunos só devem aprender o que gostam; a de que a avaliação deixa os alunos traumatizados; e a de que a memorização é ruim. Diante do primeiro problema, Nuno disse que os alunos "só podem saber o que gostam depois de aprender", reforçando que é necessário pressioná-los para lhes transmitir conhecimentos. A segunda "vaca" foi contraposta com a perspectiva de que a avaliação é um incentivo ao mérito. Já frente à terceira, Nuno falou o elementar: "memorizar ajuda a desenvolver o cérebro e preparar para atividades de ordem superior", acrescentando que não há pensamento crítico sem domínio de conteúdo. Em resumo: endurecer o sistema de ensino, focar nas habilidades primárias e não outorgar ao aluno um papel de protagonista, fizeram parte de um modelo bem-sucedido.

E a douta ignorância brasileira, o que acha disso? Perdi a conta do número de palestras pedagógicas em que as "especialistas" se mostraram contrárias à memorização (e o Nuno o que diria disso?); em várias foi defendida a ausência de verdade no ensino e se louvou que tudo na vida é relativo (como acreditar na verdade dessa proposição se tudo é relativo?); em diversas foi dito que não se pode rotular uma pessoa pelas suas roupas, "até mesmo porque bandidos no Brasil usam terno e gravata" (isso não seria um rótulo às avessas?); e em outras tantas foi dito que a única preocupação deve ser com o presente, pois o futuro não existe (a típica conduta existencialista que redunda na perda dos laços comunitários). Tudo sempre seguido de aplausos efusivos. E os resultados brasileiros no Pisa? Cada vez piores. Aplausos? Como diz João Pereira Coutinho, "as ciências humanas estão colonizadas por criaturas pedantes e vácuas que fizeram da opacidade uma ilusão de respeitabilidade".

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