ANO: 24 | Nº: 6161

Fernando Risch

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Escritor
28/04/2017 Fernando Risch (Opinião)

Ninguém está te obrigando a aderir à greve

Entendo perfeitamente que muitas pessoas batam no peito e se orgulhem em dizer que trabalharão hoje. Alguns empregam, outros são empregados. Alguns tem carteira assinada, outros recebem o pro-labore de uma pujante sociedade. É compreensível, nem todos são iguais. Há aqueles, também, que não se alinham à greve geral, que visa chamar atenção contra as reformas impostas pelo governo federal, porque, simplesmente, a ideologia da maioria dos que pararão não é compatível com a sua.

Greve é, sim, um ato político. E no atual panorama da política brasileira, é o último recurso que a população tem em mãos para ter sua voz ouvida. Se estivéssemos em uma monarquia, ainda teríamos a opção da guilhotina aos reis. Mas somos menos extremados, esperamos pelo diálogo. E exatamente isso, diálogo, é o que se pede. Conversar, não impor.

Reformar sem diálogo não faz parte de uma democracia, representa o autoritarismo. Impostas na marra, a reforma trabalhista (aprovada na madrugada de ontem, no Congresso) e da previdência são redigidas e votadas por um Congresso envolto em escândalos, nomes sujos e de estratagemas vis para salvar a própria pele e a servir aos interesses daqueles que bancam suas campanhas, alinhados com um governo ilegítimo, fruto do conluio da grande maioria do Legislativo, com o carimbo impotente de um Judiciário medroso.

O único debate que se teve acerca das reformas vieram com a exposição midiática, com a falsa ideia de imparcialidade, mostrando os favoráveis e os contras. Segundo levantamento da Rede Brasil, os grandes veículos utilizaram-se de mais de 70% de fontes favoráveis às reformas em suas matérias sobre o tema (o Jornal Nacional chegou a 83%). O debate veio através do martelamento ideológico incessante na cabeça de todos que buscavam se informar sobre o assunto, sem poder responder ao seu televisor. Das fontes do jornal O Globo, 90% eram pró-reformas. Dos seus leitores, apenas 15% eram favoráveis. O que mostra que as vozes das ruas não estão sendo ouvidas.

Greve é um direito constitucional. Art. 1º da lei Nº 7.783 de 28 de junho de 1989:“É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender”. Eu sei disso, você sabe disso e os governantes sabem disso, apesar de não parecer. Michel Temer, em comunicado, afirmou que cortará o ponto dos funcionários que aderirem à greve. João Dória falou o mesmo: “Quem não vier trabalhar, terá o dia descontado do salário”. Além disso, o prefeito de São Paulo publicou um vídeo em suas redes sociais convocando o funcionalismo a não ir a greve, dizendo que “só quem não quer trabalhar adere à greve”, que “a manifestação não é justa” e que “quem ama o Brasil, trabalha!”.

Eu poderia falar sobre a última frase, que lembra muito Arbeit macht frei (O trabalho liberta), que dava boas-vindas aos judeus em Auschwitz, mas vou me ater ao que diz a mesma lei citada acima, no Art. 6º, inciso segundo, parágrafo segundo: “É vedado às empresas adotar meios para constranger o empregado ao comparecimento ao trabalho, bem como capazes de frustrar a divulgação do movimento”. Vindo de governantes, é natural a contrariedade a uma greve, só não se esperava tanto desespero.

Se você, trabalhador, concorda com as reformas impostas e não vê necessidade de greve, trabalhe, siga sua vida normalmente, como se nada estivesse acontecendo, você não é obrigado a aderir ao movimento. Apenas respeite aqueles que pararão em busca de um diálogo para propostas muito sérias, que afetam a todos e que excluem a população do debate.

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