ANO: 25 | Nº: 6312

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
29/04/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Insultos nas nuvens

No cafezinho surge discussão “escatológica” e logo o grupo se vê enredado na dubiez da expressão o que exige consulta alexicólogo (= dicionarista) para dissipar a contundente incerteza. O alumiamento mostrou curiosa contradita, pois o termo tanto pode significar “a doutrina sobre a consumação do tempo e da história”; ou ainda, tratado sobre os fins últimos das pessoas (exemplo, o Livro do Apocalipse é obra escatológica); mas, pasmem, também pode exprimir algo tão pouco religioso como o emprego de palavras obscenas ou imundas em obras literárias; ou estudo acerca dos excrementos ou adubos; enfim, temas coprológicos ao gosto do Marquês de Sade ou Charles Bukowski.

Os episódios intestinais surpreendem, podem liquidar romances quando ocorram em momento de convulsão orgástica, ou no êxtase amoroso, na primeira visita aos futuros sogros, quando o time está na área adversária, ao dançar um bolero, capturar o primeiro beijo, proferir aula de cátedra, quando a roleta anuncia o vermelho 27 e, até mesmo, no aeroporto de Paris.

Lembrei-me de assunto tão pouco civil ao ler as peripécias narradas pelo piloto conterrâneo Lili Lucas Souza Pinto, personagem que frequentou esse retábulo há alguns dias.

Conta ele que o avião F-13 se deslocava na rota Bagé-Livramento em dia perfeito, sem uma única nuvem no céu azul, com teto e visibilidade ilimitados, um voo digno de brigadeiro. Deixando os comandos com o mecânico, Lili abre sua maleta e dela retira o farnel, um sanduíche de mortadela, mas na primeira mordida a portinhola da cabine se abre e um passageiro indaga: - Comandante, onde é a “patente” neste avião? Lili responde que a aeronave não tinha toalete, que aguentasse até Santana, a que o interlocutor respondeu que estava com tremenda dor de barriga, eufemismo que explica com uso do verbo “borrar” e o substantivo “perna”.

Ao saber que faltava meia hora para o aterramento, o passageiro indaga se não podia descer em alguma fazenda abaixo para que se aliviar; ante a resposta negativa do piloto e o conselho de controle até a descida, a portinhola fecha, mas logo reabre com um rosto desesperado e o apelo “comandante, não dá mais, não pode pousar por aqui, tenho que ir aos pés, não seguro mais, o que faço?”

A cabine era pequena, no banco traseiro sentavam três passageiros e mais dois nas poltronas dianteiras, a lotação esgotada, e face à aflição do outro, Lili teve que recomendar que “se não desse para suster-se, que pegasse um saco contra enjoo, cuidando para não errar a pontaria”, vislumbrando, como derradeira cena, o sofredor agachado no pequeno espaço entre os passageiros, desinibindo-se dos violentos insultos que o acometiam.

Logo outro viajante bate à porta clamando solução para o terrível odor que empestava o ambiente ordenando Lili que se “abrissem as janelas e cerrassem a portinhola”, pois a insinuante flagrância já atingia a cabine. O pouso em Livramento, no entanto, foi suave como o dia lá fora.

Contudo, muita creolina foi necessária para que a viagem seguisse.

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Fonte: “Assim se voava antigamente”, de Lili Lucas Souza Pinto. Porto Alegre: Livraria e Editora Magister Ltda, 1990.

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