ANO: 25 | Nº: 6331

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
04/05/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Professor-massa

Semana passada, momentos antes da tentativa de greve geral que não passou de um alarido semelhante a um comprimido de Cebion caindo em um copo d'água, houve uma proliferação de questionamentos e informações que cautelosamente chegaram a minha pessoa. Pelas redes sociais, vi inúmeros manifestos pró-greve; diversos questionamentos obedecendo a lógica: "Professor, o senhor vai fazer greve?", seguido de "Não? Então, o senhor não vai falar sobre as reformas em sala de aula?"; e variados artigos progressistas tentando explicar, com a didática de um recém-nascido, como a greve era autônoma, desvinculada de interesses de classes/partidos/sindicatos, e como alguns governantes que ameaçaram cortar o ponto dos grevistas seriam a representação de um autoritarismo tardio.
Mesmo tentando ficar alheio a este movimento de massas, verifiquei que diversos professores, esparramados Brasil a fora, nos diversos níveis de ensino, declararam que não iriam fazer greve, mas iriam ministrar aulas sobre as reformas (Trabalhista e Previdenciária) naquele dia. Outros silenciaram, mas executaram tal ideia. Optaram pela militância, pela "reeducação" de mentes e pela doutrinação ideológica conforme preceituava revolução cultural de Gramsci? Residiria aqui o medo ao "Escola sem partido"? Como diria Max Weber, "as profecias que caem das cátedras universitárias não têm outro resultado senão o de dar lugar a seitas de fanáticos e jamais produzem comunidades verdadeiras".
Em 26/04/2017, o filósofo e professor de Harvard, Roberto Mangabeira Unger, foi entrevistado por Roberto D'Ávila na GloboNews. A genialidade do progressista Unger é inquestionável. O teórico brasileiro é um dos mentores intelectuais do "Critical Legal Studies Movement", corrente do direito que é desconhecida dos cursos pátrios, infelizmente. Digo "infelizmente", não por venerá-la, mas sim por reconhecer a importância da capacidade crítica que a mesma possui para aprofundar debates importantes.
Pois bem, durante a entrevista, Unger declarou que uma educação para o nosso século deve priorizar as capacitações analíticas e o aprofundamento seletivo. Em 2012, no Programa Roda Viva, o filósofo declarou que o aluno no Brasil, ao ser convidado a analisar um texto, oscila entre a reprodução literal do mesmo e uma livre associação de ideias: em suma, alterna-se entre "decoreba" e devaneio. Falta-lhe, assim, capacidade interpretativa.
Estamos demasiado distantes dessa proposta. Para atingirmos a etapa analítica indicada por Unger, devemos saber descrever adequadamente os objetos de estudo. Somente assim teremos capacidade racional para interpretar os problemas do cotidiano. E nada disso se faz sem a busca pela verdade. Quando professores ideologicamente marcados por teorias políticas fracassadas fazem da sala de aula um púlpito para a defesa de seus interesses, concretizam o oposto da recomendação de Unger. E o que resta? Sofrer os efeitos pessimistas do homem-massa de Ortega y Gasset: "mesmo na vida intelectual, que por sua própria essência requer a qualificação, nota-se o triunfo dos pseudo-intelectuais desqualificados. A massa atropela tudo que é diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não é como todo o mundo, quem não pensa como todo o mundo corre o risco de ser eliminado". E corre o risco de usar a razão.

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