ANO: 26 | Nº: 6543

Fernando Risch

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Escritor
05/05/2017 Fernando Risch (Opinião)

Falar mal do inimigo só lhe dá mais poder

Muitas pessoas foram pegas de surpresa com a eleição de Donald Trump nos EUA. Especialistas em ciência política se entreolhavam e perguntavam como isso foi acontecer. “Como permitiram? Como permitimos?”. Estavam atônitos, sem entender a hecatombe que caía sobre a mais poderosa das nações. Afinal de contas, transformaram um falastrão sofista de cara laranja na pessoa mais poderosa do mundo livre. Algo de errado deve ter ocorrido.

Fora a onda exageradamente conservadora que se ergue no mundo, não com um conservadorismo trivial, mas com o fascismo trajado de democracia, que sai do armário após um longo sono, perguntando ao planeta “O que está acontecendo?”, há um fator importante que dá forças à ascensão da extrema-direita: simplesmente falar mal dela.

Martelar incessantemente o adversário, quando em posições extremadas, só lhe dá força: de uma eleição de Trump, nos EUA, a uma possível eleição de Marine Le Pen, na França; a Geert Wilders, na Holanda, que fora derrotado em seu país por um candidato conservador, tal extremado são seus posicionamentos, a um político no Brasil, o qual não nomearei para não fazer exatamente o que digo neste texto.

Ryan Holiday, um dos maiores publicitários dos nossos tempos, em seu livro “Trust Me, I'm Lying” (Acredite, Estou Mentindo), conta como ele faz livros desconhecidos venderem milhões de cópias, filmes medianos explodirem em bilheteria, lojas de departamento faturarem mais e, claro, erguer nobres sem face ao patamar de celebridade. A estratégia era simples: mentir. Mas não simplesmente mentir, ele criava boatos negativos contra suas marcas, fazendo com que um nicho da população se virasse contra elas e, assim, o nome o qual ele vendia era propagado e conhecido. Ele chegou a criar o boato de abuso sexual de um escritor o qual ele promovia. O livro vendeu mais de um milhão de cópias pelo mundo.

Trump, em sua campanha, não teve sossego sequer em seu partido. Mitt Romney, republicano derrotado por Barack Obama nas eleições de 2012, por exemplo, posicionou-se contra o companheiro de partido na reta final do pleito.

A imprensa americana, em sua grande maioria, fora a Fox News e veículos ultraconservadores, trataram Trump com desprezo e chacota. Um palhaço como aquele não poderia – e não iria – assumir o cargo mais importante do planeta e eles contavam que isso simplesmente não ocorreria porque não poderia ocorrer. Mas era tarde. Trump já havia conquistado seu nicho dentro da população americana. Nacionalistas, racistas, islamofóbicos, antissemitas, machistas – lembrando que o adversário de Trump era uma mulher, a primeira na história a concorrer ao cargo e que sofrera ataques com a frase “Trump That Bitch”, algo que não irei traduzir para o português, de tão ofensivo – ou simplesmente os que queriam que ele fizesse a América grande novamente (“Make America Great Again”, slogan de Trump, institucionalizado no Governo) não iriam voltar atrás na decisão de votar no empresário.

Não voltariam porque o argumento contrário não era válido. Era simplesmente negação e escárnio. Não havia um debate claro e lógico do por que Trump não poderia ser presidente, apenas era dito que não, não poderiam eleger Trump e ponto final, pois seria catastrófico. O atual presidente americano foi linchado pela opinião pública enquanto mentia irresponsavelmente aos seus eleitores, dizendo-lhes o que eles queriam ouvir, pois ele poderia resolver qualquer problema. Foi eleito e ninguém entendia a razão. A razão foi espancamento gratuito do candidato, em vez de um diálogo no campo ideológico.

Domingo, os franceses irão às urnas decidir entre Emmanuel Macron, social-democrata do partido Em marche!, ou Marine Le Pen, candidata de extrema-direita do Front National. Marine, filha do ex-político Jean-Marie Le Pen, assim como pai, traz consigo um rol gigantesco de racismo, antissemitismo, islamofobia, nacionalismo e, até mesmo, acusações de simpatia com o nazismo. Maciçamente, a imprensa francesa já se posicionou contra Le Pen, em uma campanha aberta à favor do candidato-paraquedista Macron. Se eu fosse apostador, colocaria minhas economias em Le Pen, apesar de os números de Macron serem superiores no primeiro turno.

No Brasil, nas pesquisas presidenciais, um candidato específico cresce e é tão perigoso quanto os outros citados acima. Ninguém senta para conversar com esse candidato, ninguém coloca seus rasos argumentos e seus preconceitos no âmbito do debate, para que fique claro quem ele realmente é. Apenas batem nele gratuitamente, dizendo que não, não se pode votar neste candidato em 2018. Seu eleitorado já está decidido e quanto mais o agridem, erguendo seu nome, mais ele crescerá nas pesquisas. Uns dizem pra “já ir” se acostumando. Se seguir nesse ritmo, sem o embate no campo das ideias, só no “não por não”, talvez estejamos fadados a arcar com a mesma catástrofe extremada que varre o planeta. Só não adianta fingir surpresa depois.

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