ANO: 25 | Nº: 6381

Fernando Risch

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Escritor
19/05/2017 Fernando Risch (Opinião)

Está na hora de deixar os rancores de lado

Foi golpe. Sim, foi golpe. Não porque o impeachment de Dilma Rousseff tenha irregularidades na questão jurídica. Ele percorreu perfeitamente todas as etapas previstas na Constituição, dando direito de defesa  – por mais que estivesse sendo julgada por seus promotores –culminando com a cassação de seu mandato. Mas foi golpe. Golpe pela maneira que o processo foi conduzido, por quem foi conduzido e para quê foi conduzido. Todos sabem que ninguém, na República Federativa do Brasil, se importa com pedaladas fiscais. A razão era outra.

 

Assim como, àqueles que saíram às ruas pedindo que esse processo se cumprisse tinham suas razões. Dilma Rousseff manejava com pouca destreza seu governo, trazendo desequilíbrio na economia e muitas insatisfações a algumas classes do País. Se perguntarem em sigilo ao petista mais fanático, num momento de lucidez e guarda baixa, ele admitira seus desagrados com a candidata que ele mesmo elegeu. Mas, claro, não poderia trazer tal discurso a público, havia um lado a ser defendido. E no menor sinal de fraqueza, aquele que não se punha 100% por uma causa, certamente estava do outro lado do ringue.

 

Esses dois lados se digladiam há três anos e pouco diálogo surgiu nesta luta visceral travada diariamente. Eu me posicionei também. Estava – e estou – ao lado dos que acham o impeachment de Dilma um absurdo, um tapa na cara da própria moralidade. Desde aquela votação escandalosa em um domingo há muito passado, muitos dos que defendiam a lisura ao proferir seu “Sim” acabaram condenados pelos mais diversos crimes. E outros ainda serão. E estão sendo.

 

E eu sei, é irresistível falar “eu te avisei” ou “a culpa não é minha”, porém, infantilidade não cabe na política. Não é hora de olhar para o passado. O que passou, passou. O diálogo precisa reaparecer e as distâncias entre os ditos de direita e esquerda se estreitarem. Nem toda pessoa de direita é homofóbica – como alguns pensam –, assim como nem toda pessoa de esquerda defende os homossexuais. Nem toda pessoa de direita quer o Estado mínimo, assim como nem toda pessoa de esquerda é contra privatizações. E isso precisa ser entendido. Não importa o lado dentro do quadro cartesiano das definições políticas você crê estar: esqueça-o. Se você é a favor da democracia, deve ser a favor do debate, da discordância e da conciliação de ideias, sempre – e acima de tudo – com respeito.

Michel Temer cairá e tombará por cima de uma legião de outros políticos. A elite tucana sentará ao banco dos réus – Aécio Neves já pode ter sido preso no momento em que você lê essas linhas – e, talvez, as provas até então superficiais contra os petistas se tornem palpáveis e a alta cúpula do PT também tenha o mesmo destino. E com isso tudo, as rusgas do passado virão junto. Mas está na hora de esquecer isso. Não esquecer quem nós somos ou o que acreditamos. Você não precisa sequer se desfiliar do seu partido, caso tenha um. Apenas debata. E debata com ideias, não com agressões.

 

Nos últimos três anos, não importa quem começou essa briga, todos lutaram. E o Brasil, coitado do Brasil, ficou no meio disso, desta instabilidade que põe à prova diariamente as instituições e a democracia. Se ficarmos remoendo o passado, nunca alcançaremos um futuro. Estamos abrindo um novo tempo, um tempo não necessariamente bom, mas completamente necessário. Um tempo de limpar a casa e de curar feridas, dando um passo à frente deste processo ininterrupto de aprendizagem chamado democracia. 

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