ANO: 25 | Nº: 6378

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
27/05/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Descrenças

Eu não acredito no diabo, mas não demonizo quem acredita; não acredito em assombração, mas não fico assombrando quem acredita; sou simpatizante do vegetarianismo, mas não escarneço quem gosta de carne; não gosto de rap, mas não fico sambando na cara de quem gosta; sou ex-fumante, mas não destruo o cigarro de ninguém; não acredito em vampiros, mas não mordo a jugular de quem acredita; não acredito em discos voadores, mas não chamo de lunático quem acredita; não acredito no Lula, mas não desrespeito quem acredita. Enfim, eu não acredito em tanta coisa, mas não preciso gastar meu tempo confirmando isso e desrespeitando quem acredita. Imaginem se a gente fizesse uma lista de tudo aquilo que não gostamos ou acreditamos, e decidíssemos nos empenhar em lutar contra isso? Não faríamos outra coisa na vida.

                Foi mais ou menos nesse sentido a afirmação do médico Miguel Nicolelis quando, entrevistado por Pedro Bial, respondeu que não acreditava em Deus, mas que respeitava quem acreditava, não só porque são bilhões de crentes, mas, também, por ser um neurocientista e acreditar muito no poder da mente humana e nas suas infindáveis e ainda insondáveis possibilidades. Ele não acredita, mas respeita.

                E assim é que deve ser. Se não acreditas, tudo bem. Mas para que desrespeitar quem acredita? Acha que assim vai convencê-los a não acreditar também? Ainda que Carlos Drummond de Andrade tenha dito que “Há muitas razões para duvidar e uma só para crer”, entendo que a probabilidade do crente deixar de crer por influência de um descrente desrespeitoso é a mesma do descrente passar a crer por influência de um crente intolerante.

                Todavia, a lógica da militância ateísta parece estar numa espécie de revanchismo, visto que ficam muito incomodados com a ação dos crentes que admitem publicamente sua fé e tentam convencer outras pessoas a acreditar em Deus.  Assim, na tentativa de converter crentes não muito convictos e de arregimentar descrentes, reagem usando argumentos que, invariavelmente, subestimam a inteligência dos crentes e, assim, ofendem e desrespeitam aqueles bilhões de pessoas referidas pelo Dr. Miguel, acima referido.

                 É nesse contexto que a militância ateísta se torna incoerente. Por que não se empenhar um lutar, também, contra as outras coisas que não acreditam? Muito mais honesto do que lutar contra o que não acredita, é lutar em favor do que acredita, e é exatamente isso que os crentes fazem. E, ainda que no passado as religiões possam ter justificado barbaridades contra as pessoas, hoje, no geral, todas trabalham para o bem da humanidade, ou seja, não fazem mal para ninguém.

                Os desígnios de Deus não são um mistério apenas para os ateus, mas também para os crentes. A diferença é que os crentes confiam que ali está a mão de Deus, já os ateus usam a dúvida para contestar a existência de Deus, desconsiderando a lição de Carl Sagan no sentido de que “a ausência de evidência não é evidência de ausência.”

 

 

 

 

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