ANO: 25 | Nº: 6385

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
27/05/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Uma curiosa postura municipal

Há anos jornal publicou edital descoberto em periódico do século em que nossa cidade ainda era um povoado, e que se reproduz aqui por razões históricas (*). Dizia ele:

Alonso de Noronha Pires Franco, fiscal pela Câmara da Vila. Faço saber aos povos desta minha vara que, no dia 4 do mês, sairei em triunfo de correição, aferindo os pesos de todos, bem como as varas respectivas.

1º. Ficam proibidos todos os regos. Aquele que não tapar o que tiver, bem como todos os buracos, será multado em 20$000.

2º. Nenhum animal da ordem das cabras poderá roer no vizindário.

3º. Todo e qualquer que tiver seu bicho, que traga bem seguro. Se solto, multa de 60$000.

4º. Nenhum negociante ou taverneiro, ainda mesmo coronel da guarda nacional, poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira, multa de 60$000.

5º Negro sem bilhete, tarde da noite, é ladrão. Multa no senhor 5$000.

6º. Português de braço dado com negra cativa, de noite, é fábrica de mulatos malcriados. Cadeia nos dois (um em cada xadrez por causa das dúvidas).

7º. Todo indivíduo da raça canina, sem a coleira, bola (veneno) me valha. Ainda mesmo que seja desses de cabelinho branco amarelado.

8º. É proibida a venda de leite com água ou água no leite, porque prejudica o negócio lá da minha dona. Quebrarei a cuia do vendilhão.

9º. Bois ou vacas deitados na rua, sem lanternas nos chifres, de modo que os andantes os vejam de longe, multa de 5$000.

10º. Cantadores de modinhas desafinadas, tarde da noite, na porta das caçoilas. Cadeia até de manhã, porque não quero esses desaforos cá pelos meus distritos.

11º. Ninguém poderá andar armado, com armação alguma, nem de pau na mão, de noite, que é perigoso. Multa de 4$000.

12º. Negra ou mulata, que andar na rua de noite, toda se requebrando – cabeça raspada e uma dúzia de bolos – para evitar o desaforo de certos velhos que andam de rixa com as mulheres.

13º. Toda contravenção, omitida nesta postura, será resolvida pelo meu entendimento.

Para constar e não dizerem que não sabiam, mandei afixar este à porta do farmacêutico, onde se fala da vida alheia. O Fiscal Geral Alonso Pires Franco.

 

(*) “Um Edital Precioso do Século Passado”, Correio do Sul, 20 de setembro de 1992.

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