ANO: 24 | Nº: 6161

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
03/06/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Apocalipse zumbi

Zumbi é um monstro da ficção assim como o vampiro e o lobisomem. Uma bem sucedida invenção da mente criativa do norte-americano George Andrew Romero, que caiu no gosto popular e deu origem a muitas lendas. Uma delas fala do Apocalipse Zumbi que seria uma infestação incontrolável destes monstros que tomariam conta do planeta e acabariam com a aventura humana na Terra.

            Para quem não conhece, zumbis são mortos-vivos, ou seja, defuntos que ressuscitam graças a um vírus, a algum ritual ou ao contato com alguma substância. Reanimados, saem de suas tumbas para atacar os vivos e, segundo a lenda, se alimentar de cérebros frescos. Por estarem com os corpos em decomposição, possuem um aspecto nojento, fedorento, movimentos lentos e ações irracionais.

            Não tenho conhecimento do que inspirou o criador deste monstro da ficção, mas quando tive a oportunidade de assistir bem de perto o depoimento de um jovem “ex-usuário” de crack, foi inevitável, para mim, a comparação daquela figura humana com um zumbi. Fiquei espantado com a dimensão do estrago que esta droga desgraçada fez na cabeça daquela criança. Olhar perdido, raciocínio lento, agitação física como se estivesse atrasado para algum compromisso inadiável, dificuldade de concentração e de comunicação etc. Um quadro lamentável e aparentemente irreversível. É verdade que ele estava sendo tratado com medicamentos pesados que podem ter contribuído para aquele quadro de saúde, mas o guri parecia um zumbi, com movimentos aparentemente involuntários, caminhando sem saber aonde ir, projetando um futuro irreal, rumando inexoravelmente para uma frustração e, com ela, a provável recaída.

            Já tinha visto algo semelhante com uma pessoa que consumiu muita maconha por muito tempo, só que, neste caso, o viciado era menos agitado. Todavia as demais sequelas são similares: olhar inexpressivo (de peixe morto), fixo em algum ponto indeterminado no horizonte e a capacidade de compreensão e interpretação seriamente comprometida.

            Há quem afirme que os danos do crack são irreversíveis, ou seja, está se criando uma legião de pessoas incapacitadas física e/ou mentalmente para um mercado de trabalho cada vez mais exigente. Para completar, boa parte da intelectualidade nacional advoga a tolerância com as drogas, pressionando as autoridades públicas a não reprimir o consumo de narcóticos.

            Não é necessário muito esforço para ver o rumo que a situação está tomando e, assim, acreditar no Apocalipse Zumbi referido anteriormente. O quadro é gravíssimo, uma epidemia que já adquiriu status de problema de saúde pública, mas que, infelizmente e pra variar, ainda não recebeu o devido tratamento pelo governo. Estamos incubando uma geração de zumbis, viciados em drogas que desmancham o cérebro de seus usuários, transformando-os em humanos errantes. Mentes mortas em corpos vivos com o único objetivo de adquirir mais drogas a qualquer preço. Se isso não parar, esta infestação de zumbis pode atingir escalas catastróficas.

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            Estas mal traçadas linhas foram escritas no final de 2011. Quase seis anos depois, nada mudou. O tempo se encarregou apenas de confirmar aquilo que era previsível. A recente tentativa de acabar com uma cracolândia de São Paulo reacendeu o debate e, com ele, o conflito de interesses, posturas e argumentos entre as forças políticas, jurídicas e administrativas. Cada um puxa para um lado e esta franca falta de entendimento apenas contribui para que se continue fazendo nada, deixando o caminho livre para o apocalipse. Não foi, não é e não será por falta de aviso!

 

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