ANO: 23 | Nº: 5669

Dilce Helena dos Santos

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Psicóloga
13/06/2017 Dilce Helena dos Santos (Opinião)

Nós, acumuladores

Desde que descobrimos que os computadores não seriam a solução para nossos problemas de espaço, ou seja, eles não são ilimitados, estamos a ponto de encarar a verdade, uns mais, outros menos, de que viver pode até ser colecionar, mas não é possível acumular tudo o que fez parte de nossa existência.

Há falta de espaço para coisas ou ficamos necessitados de guardar, acumular, reter demais?

Todos os objetos guardam em si o histórico de nossa vida, trajetória, pessoas marcantes por detrás deles ou estamos substituindo vivências significativas, vínculos afetivos verdadeiros pelo acúmulo não reflexivo de coisas?

Não estou me referindo ao estado patológico em que a pessoa, geralmente após vivenciar uma grande perda ou situação traumática, encontra segurança e significado para continuar a viver acumulando todo tipo de coisa, criando um mundo obstruído e cheio de lembranças significantes ou não. Embora a ocorrência deste estado obsessivo acumulador tenha crescido muito ultimamente, talvez em função de nossa forma civilizada de conduzir a vida evidenciando o ter em detrimento do ser, estou me referindo ao ser humano normal, comum. Aquele que passa a vida colecionando sem ordem ou propósito específico, roupas, livros, objetos diversos, papelada, coisas que não fazem mais sentido e estão à espera do grande dia em que terão uma grande utilidade novamente. Ou ainda que guarda embalagem do bombom do primeiro encontro, todos os cartões de aniversário, natal, etc.

Na verdade, a humanidade sempre cultivou guardar um objeto quando este mostrou alguma serventia. Prova disso são os sítios arqueológicos dos primórdios da existência do homem repletos de artefatos que ajudam a contar nossa trajetória evolutiva. Entretanto, chegamos a um ponto onde seria necessário, afirmam alguns, termos outro planeta igual em tamanho apenas para abrigar nosso lixo.

Tendo em vista que guardamos mais do que descartamos, onde vamos por tantas coisas?

E para que serve tantos guardados se seriam necessárias duas ou três vidas para podermos olhar nossas “coleções” pelo menos uma vez ao longo dos anos?

O descarte consciente é uma opção a se pensar. A faxina impiedosa que elimina o que não tem sentido nem propósito pode salvar, inclusive, as relações domésticas. Guardar o primeiro sapatinho do filho é lindo, mas todos os cadernos, desenhos, brinquedos é investir no enlouquecimento.

Entretanto, a limpeza mais significativa é a interior. De buscar mais significados no mundo interno e menos apegos materiais que provem sua existência. Desobstruindo internamente, quem sabe, o caminho que tantas vezes impede o livre transcurso das emoções.

 

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