ANO: 23 | Nº: 5669

Fernando Risch

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Escritor
17/06/2017 Fernando Risch (Opinião)

Nunca gostei das minhas sessões de autógrafos

Neste momento, reclino minha cadeira. O sol das nove da manhã bate no meu rosto e minha vista torna-se alaranjada. Saio do prisma, abro os olhos e fito o teto. Esfrego a face e penso se tudo vale a pena, se tudo vai dar certo. Infelizmente, estou tenso. Deveria estar feliz, mas não estou.
Quando se trata de compromisso profissional, seja ele qual for, eu o cumpro. E quando faço, dou meu melhor, para que o resultado final seja o mais próximo da perfeição. Quando lanço livros, acontece o mesmo. Você jamais me verá feliz em uma sessão de autógrafos. Estou tenso, preocupado, um pouco triste até, mas jamais estarei feliz. É um compromisso profissional que preciso cumprir.
Eu deveria aproveitar o momento, abraçar amigos, conversar aleatoriedades e vivenciar o momento que, possivelmente, seja o ápice de regozijo de um escritor. Mas não o faço. O momento não é meu, é de quem comparece para me prestigiar. Penso se estão satisfeitos. Se o ambiente é adequado. Se estão com sede, com fome, se precisam ir ao banheiro. Quero pegá-los no colo e mimá-los. Agradecê-los pelo momento delicado de dedicar um pedaço do seu dia para ver um imbecil riscar seu nome na folha de rosto de um livro que talvez sequer lhes interesse e que possivelmente jamais irão ler. Mas estão lá, firmes e fortes. Às vezes esqueço um nome, dois nomes. À noite, quando boto a cabeça ao travesseiro pra dormir, esses nomes me assombram, para que eu nunca mais os esqueça. Mas a vergonha continua.
Nunca gostei das minhas sessões de autógrafos e talvez nunca goste. Ou talvez goste, caso eu seja multimilionário e tenha uma equipe que faça todo o trabalho para mim, com uma multidão de seguidores a me acompanhar onde quer que eu vá e a única coisa que eu precise fazer é sorrir um sorriso de felicidade genuína e aproveitar o momento, com a certeza que tudo dará certo. Isso me assusta. E se ninguém aparecer? Alguém vai aparecer. Minha mãe, meu pai, minha mulher. Já são três. Pelo menos esses sempre estão lá.
Neste sábado, lanço meu terceiro livro - ‘E cuidado com o sal’. Aos que comparecerem na Café & Prosa Livraria, a partir das 17h de hoje, ver-me-ão sorrindo. Mas, no fundo, o sorriso é um excelente disfarce para um acúmulo inimaginável de preocupações que permeiam minha mente, para que tudo dê certo e, quando não tiver mais um exemplar sequer para anotar meu nome, todos estejam satisfeitos, para que eu, então, possa sorrir o verdadeiro sorriso da satisfação.

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