ANO: 23 | Nº: 5718

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
17/06/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Verdades indiscutíveis

Se tem algo que a vida me ensinou é que algumas coisas não podem ser discutidas, questionadas, contestadas etc. Elas são assim ou devem ser assim e ponto final. Por exemplo, por que lemos da esquerda para a direita e de cima para baixo? Por que deixamos crescer o cabelo de nossas filhas e não deixamos crescer (cortamos) os cabelos de nossos filhos?

Nos dias de hoje, em plena Era do Conhecimento, defender este ponto de vista pode parecer estranho ou descabido, mas assistindo o debate sobre a legalização das drogas ocorrido nesta semana na 38ªSemana Jurídica de Bagé e ouvindo o velho e cansado confronto das teses, relembrei deste ensinamento.

A tese favorável à liberação das drogas tem como maior fundamento a legalidade do consumo e comercialização das bebidas alcoólicas. Trata-se de um argumento ciumento, ou seja, se é legal consumir e comercializar álcool, por que não a maconha e outras drogas? Claro que não é só isso, mas é principalmente isso. Além de ciumento, o argumento ainda é eticamente questionável por tentar justificar um erro com outro erro. Mas, se é um erro (pois nocivo à saúde e à sociedade), por que o consumo de bebidas alcoólicas é liberado? Bueno, aqui terminam os argumentos fundamentáveis e entram em campo a “questão cultural”, a tradição, o costume entre outras coisas que explicam, mas não justificam. O dado real e inquestionável, porém, é que por tudo isso e muito mais, o número de consumidores de bebidas alcoólicas é infinitamente maior que o de qualquer outro alterador de humor. E, como em qualquer democracia, a vontade da maioria é que deve prevalecer, se fizermos um plebiscito popular sobre qual a “droga” deve ser liberada, não tem para ninguém. Vai ser de capote! Aqui e em qualquer lugar do planeta o álcool não só ganha de goleada como ainda pede música no Fantástico todo domingo.

Daí outra pergunta se impõe: por que liberar o consumo de apenas um alterador de humor e não de todos? Mais uma vez o argumento que explica, mas não justifica, entra em campo: porque é assim em quase todos os países do mundo, que permitem o consumo de apenas um. Lá vem, de novo, a tradição, o costume e a cultura da monogamia até na chapação. Só o álcool pode alterar o nosso humor.

Já contra a legalização das drogas, mais fortes que os argumentos são todas as experiências internacionais mal sucedidas. Até aqui no vizinho Uruguai que, apesar de estar no início, já dá claros sinais de que não está dando certo. Como explicar isso? Por que aqui – e só aqui – daria certo?

Como disse no início, certas coisas não podem ser discutidas. A tradição, o costume e a cultura resultam de séculos e séculos de experiência de nossos ancestrais que mais erraram do que acertaram e, assim, consolidaram valores e verdades que merecem ser preservados e permanecerem intocados por conter conhecimento empírico riquíssimo. Desperdiçar tudo isso seria demonstração de ignorância e desrespeito.

            Como disse Belchior na música “Como nossos pais”, “o novo sempre vem” e com toda a sua arrogância e presunção questiona, contesta e enfrenta a geração anterior. Mas nada como um dia depois do outro para que os filhos se tornem pais e comecem a fazer as mesmas coisas que condenavam nos seus pais. Ou seja, entendem a verdade contida naquele comportamento conservador e protetor que tanto lhes incomodava no passado e que faz tanto sentido no presente. C’est la vie!

            Que venha o novo, que modernizemos as coisas, mas, na falta de um argumento melhor ou na dúvida, não podemos desrespeitar a sabedoria dos mais velhos, a importância de valores, verdades e normas consagradas pelo tempo e pela experiência de tantas gerações. Lutar pelo novo só por ser novo só não é pior do que lutar contra o velho só por ser velho.

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