ANO: 23 | Nº: 5718

Rochele Barbosa

rochelebarbosa@gmail.com
Jornalista formada pela Universidade da Região da Campanha. Responsável pela produção e reportagem do caderno de Saúde do Jornal MINUANO
19/06/2017 Caderno Minuano Saúde

Transtorno do Espectro Autista

Foto: Divulgação

Equipe multiprofissional auxilia pacientes
Equipe multiprofissional auxilia pacientes

 

O autismo é um transtorno de desenvolvimento que geralmente aparece nos três primeiros anos de vida e compromete as habilidades de comunicação e interação social.

Em 2013, foi lançada a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), que trouxe algumas mudanças importantes, entre elas novos diagnósticos e alterações de nomes de doenças e condições que já existiam.

Nesse manual, o autismo, assim como a síndrome de Asperger, foi incorporado a um novo termo médico e englobador, chamado de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Com essa nova definição, a síndrome de Asperger passa a ser considerada, portanto, uma forma mais branda de autismo. Dessa forma, os pacientes são diagnosticados apenas em graus de comprometimento, o diagnóstico fica mais completo.

O Transtorno do Espectro Autista é definido pela presença de “Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, atualmente, ou por história prévia”, de acordo com o DSM-V.

Nesta edição, a neuropsicopedagoga Suélen Marçal Silveira e a psicóloga Márcia Mansur Segredo irão explicar as causas, sintomas e tratamentos deste transtorno.

 

Causas, sintomas e tratamento do Autismo

As causas ainda são desconhecidas, mas a pesquisa na área é cada vez mais intensa. Provavelmente, há uma combinação de fatores que levam ao autismo. Sabe-se que a genética e agentes externos desempenham um papel chave nas causas do transtorno. De acordo com a Associação Médica Americana, as chances de uma criança desenvolver autismo por causa da herança genética são de 50%, sendo que a outra metade dos casos pode corresponder a fatores exógenos, como o ambiente de criação.

Segundo a neuropsicopedagoga Suélen, de qualquer maneira, muitos genes parecem estar envolvidos nas causas. “Alguns tornam as crianças mais suscetíveis ao transtorno, outros afetam o desenvolvimento do cérebro e a comunicação entre os neurônios. Outros, ainda, determinam a gravidade dos sintomas”, informou.

Quanto aos fatores externos que possam contribuir para o surgimento estão a poluição do ar, complicações durante a gravidez, infecções causadas por vírus, alterações no trato digestório, contaminação por mercúrio e sensibilidade a vacinas.

Quantas crianças têm autismo?

O número exato de crianças com autismo é desconhecido. Um relatório publicado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos EUA ,sugere que o autismo e seus distúrbios relacionados são muito mais comuns do que se imagina. “Não está claro se isso se deve a um aumento na taxa da doença ou a maior capacidade de diagnóstico do problema”, conta a psicóloga Márcia.

Afeta quatro a cinco vezes mais meninos do que meninas, destaca a profissional. Renda familiar, educação e estilo de vida parecem não influenciar.

Márcia argumenta que alguns médicos acreditam que a maior incidência se deve a novas definições do transtorno. O termo "autismo", agora, inclui um espectro mais amplo de crianças. Por exemplo, hoje em dia, uma criança diagnosticada com Autismo altamente funcional poderia ser simplesmente considerada tímida ou com dificuldade de aprendizado há 30 anos.

 

Outros transtornos de desenvolvimento parecido incluem:

Síndrome de Rett: muito diferente do Autismo, só ocorre no sexo feminino.

Transtorno desintegrativo da infância: doença rara em que uma criança adquire as habilidades e depois esquece tudo antes dos 10 anos de idade.

Transtorno de desenvolvimento pervasivo: não especificado, também chamado de autismo atípico.

Fatores de risco

Alguns fatores são considerados de risco para o desenvolvimento do autismo, conta a especialista Suélen.  

Sexo: meninos são de quatro a cinco vezes mais propensos a desenvolver autismo.

Histórico familiar: famílias que já tenham tido algum integrante com autismo correm riscos maiores de ter outro posteriormente. Da mesma forma, é comum que alguns pais que tenham gerado algum filho autista apresentem problemas de comunicação e de interação social eles mesmos.

Outros transtornos: crianças com alguns problemas de saúde específicos tendem a ter mais riscos de desenvolver o transtorno do que outras crianças. Epilepsia e esclerose tuberosa estão entre esses transtornos.

Idade dos pais: quanto mais avançada a idade dos pais, mais chances de a criança desenvolver autismo até os três anos.

Sintomas

A maioria dos pais de crianças com autismo suspeita que algo está errado antes de a criança completar 18 meses de idade e busca ajuda antes que ela atinja dois anos, complementa a neuropsicopedagoga.

 

As crianças com autismo normalmente têm dificuldade em:

-Brincar de faz de conta;

-Interações sociais;

-Comunicação verbal e não verbal;

"Algumas parecem normais antes de um ou dois anos, mas de repente regridem e perdem as habilidades linguísticas ou sociais que adquiriram anteriormente", acrescenta Suélen. “Esse tipo de autismo é chamado de autismo regressivo”, salienta.

 

Uma pessoa com autismo pode:

-Ter visão, audição, tato, olfato ou paladar excessivamente sensíveis (por exemplo, eles podem se recusar a usar roupas "que dão coceira" e ficam angustiados se são forçados a usá-las);
-Ter uma alteração emocional anormal quando há alguma mudança na rotina;
-Fazer movimentos corporais repetitivos;
-Demonstrar apego anormal aos objetos.

 

"Os sintomas podem variar de moderados a graves", também argumenta a profissional de pedagogia.

 

Os problemas de comunicação no autismo podem incluir:

-Não poder iniciar ou manter uma conversa social;

-Comunicar-se com gestos em vez de palavras;

-Desenvolver a linguagem lentamente ou não desenvolvê-la;

-Não ajustar a visão para olhar para os objetos que as outras pessoas estão olhando;

-Não se referir a si mesmo de forma correta (por exemplo, dizer "você quer água" quando a criança quer dizer "eu quero água");

-Não apontar para chamar a atenção das pessoas para objetos (acontece nos primeiros 14 meses de vida);

-Repetir palavras ou trechos memorizados, como comerciais;

-Usar rimas sem sentido;

Existem diversos sintomas que podem indicar autismo, e nem sempre a criança apresentará todos eles. Entre os grupos de sintomas que podem afetar uma pessoa com autismo estão:

-Interação social;

-Não faz amigos;

-Não participa de jogos interativos;

-É retraído;

-Pode não responder a contato visual e sorrisos ou evitar o contato visual;

-Pode tratar as pessoas como se fossem objetos;

-Prefere ficar sozinho, em vez de acompanhado;

-Mostra falta de empatia;

-Resposta a informações sensoriais;

-Não se assusta com sons altos ou é extremamente sensível; 

-Tem a visão, audição, tato, olfato ou paladar ampliados ou diminuídos;

-Pode achar ruídos normais dolorosos e cobrir os ouvidos com as mãos;

-Pode evitar contato físico por ser muito estimulante ou opressivo;

-Esfrega as superfícies, põe a boca nos objetos ou os lambe;

-Parece ter um aumento ou diminuição na resposta à dor;

Brincadeiras

-Não imita as ações dos outros;

-Prefere brincadeiras solitárias ou ritualistas;

-Não faz brincadeiras de faz de conta ou imaginação

Comportamentos

-Acessos intensos de raiva ;

-Fica preso em um único assunto ou tarefa (perseverança);

-Baixa capacidade de atenção;

-Poucos interesses;

-É hiperativo ou muito passivo;

-Comportamento agressivo com outras pessoas ou consigo;

-Necessidade intensa de repetição;

-Faz movimentos corporais repetitivos;

Buscando ajuda médica

Márcia recomenta que crianças,em geral, dão os primeiros sinais de autismo logo no primeiro ano de vida. “Se alguém notar qualquer sinal do transtorno na criança, deve conversar com um médico. Ele poderá recomendar exames específicos”, argumento.

 

Os comportamentos da criança de alerta são:

Não responder com sorriso ou expressão de felicidade aos seis meses;

Não imitar sons ou expressões faciais aos nove meses;

Não balbuciar aos 12 meses;

Não gesticular aos 12 meses;

Não pronunciar palavras aos 16 meses;

Não dizer frases compostas de pelo menos duas palavras aos 24 meses;

Perder habilidades sociais e de comunicação em qualquer idade.

Na consulta médica

A psicóloga destaca que é provável que um pediatra consiga fazer o diagnóstico de autismo, analisando os sintomas. “No entanto, você pode ser encaminhado para um centro especializado em que equipe multidisciplinar avaliará a criança”, comenta.

Como as consultas costumam ser breves e há muitas informações e perguntas para cobrir é uma boa ideia estar bem preparado.

Diagnóstico

O médico procurará por sinais de atraso no desenvolvimento. “Se observados os principais sintomas do autismo, ele encaminhará a criança em questão para um especialista, que poderá fazer um diagnóstico mais exato e preciso. Geralmente, ele é feito antes dos três anos de idade, já que os sinais do transtorno costumam aparecer cedo”, relata Márcia.

Suélen destaca que para realizar o diagnóstico, o médico utiliza o critério do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria. “Segundo ele, a criança poderá ser diagnosticada com autismo se apresentar, pelo menos, seis dos sintomas clássicos do transtorno”, informa a profissional.

 Exames

Todas as crianças devem fazer exames de desenvolvimento de rotina com o pediatra. Podem ser necessários mais testes se o médico ou os pais estiverem preocupados. “Para autismo, isso deve ser feito, principalmente, se uma criança não atingir marcos de linguagem”, diz Suélen.

Essas crianças poderão fazer uma avaliação auditiva, teste de chumbo no sangue e teste de triagem para autismo, como a lista de verificação de autismo em crianças (Chat) ou o questionário para triagem de autismo.

Um médico experiente no diagnóstico e tratamento de autismo normalmente é necessário. Como não há testes biológicos para o autismo, o resultado, muitas vezes, será feito com base em critérios muito específicos. “Uma avaliação normalmente inclui um exame físico e neurológico completo”, ressalta a neuropsicopedagoga.

O autismo inclui um amplo espectro de sintomas, comenta Márcia. “Portanto, uma avaliação única e rápida não pode indicar as reais habilidades da criança. O ideal é que uma equipe de diferentes especialistas avalie a criança com suspeita de autismo. Eles podem observar: comunicação, linguagem, habilidades motoras, fala, êxito escolar e habilidades de pensamento”, relaciona a especialista em psicologia do transtorno.

Convivendo com o transtorno

"O autismo continua sendo um distúrbio difícil para as crianças e suas famílias, mas a perspectiva atual é muito melhor do que na geração passada", explica Suélen. “Naquela época, a maioria das pessoas com autismo era internada em instituições”, completa.

“Hoje, com o tratamento correto, muitos dos sintomas podem melhorar, mesmo que algumas pessoas permaneçam com alguns sintomas durante toda a vida. A maioria das pessoas consegue viver com suas famílias ou na sociedade”, acrescenta a especialista em neuropsicopedagogia.

A perspectiva depende da gravidade do transtorno e do nível de tratamento que a pessoa recebe. “Procurar ajuda de outras famílias que tenham parentes com autismo e por profissionais que deem o suporte necessário aos parentes também é uma alternativa interessante”, argumenta Márcia Segredo.

Suélen também salienta que não existe cura, mas um programa de tratamento precoce, intensivo e apropriado melhora muito a perspectiva de crianças pequenas com o transtorno. “A maioria dos programas aumentará os interesses da criança com uma programação altamente estruturada de atividades construtivas. Os recursos visuais geralmente são úteis”, destaca.

O principal objetivo do tratamento é maximizar as habilidades sociais e comunicativas da criança por meio da redução dos sintomas e do suporte ao desenvolvimento e aprendizado.

Mas a forma de tratamento que tem mais êxito é o que é direcionado às necessidades específicas da criança. Um especialista ou uma equipe experiente deve desenvolver o programa para cada criança.

As profissionais da área também contam que existem diversos programas para tratar problemas sociais, de comunicação e de comportamento que estejam relacionados ao autismo. “Alguns desses programas focam na redução de problemas comportamentais e na aprendizagem de novas habilidades. Outros procuram ensinar crianças a como agir em determinadas situações sociais e a como se comunicar propriamente. Um desses programas é a ABA, sigla em inglês para Análise Aplicada do Comportamento, muito utilizado em crianças pequenas com algum distúrbio dentro do espectro do autismo. A ABA usa uma abordagem de aprendizado individual que reforça a prática de várias habilidades. O objetivo é que a criança se aproxime do funcionamento normal do desenvolvimento. Os programas de ABA normalmente são feitos na casa da criança sob a supervisão de um psicólogo comportamental”, relata Suélen Silveira.

Outro programa bastante recorrente como alternativa de tratamento é o Teacch(sigla em inglês para Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Déficits relacionados à Comunicação), que utiliza outros recursos visuais que ajudam a criança a trabalhar de forma independente e a organizar e estruturar seu ambiente.

“O Teacch tenta melhorar as habilidades e a adaptação de uma criança, ao mesmo tempo que aceita os problemas associados aos distúrbios dentro do espectro do autismo. Diferentemente dos programas de ABA, os programas Teacch não esperam que as crianças atinjam o desenvolvimento normal com tratamento”, destaca a psicóloga Márcia.

Trabalho em Bagé

Hoje, a Apae atende 55 autistas onde fazem acompanhamento no grupo de Transtorno do Espectro Autista (TEA), onde trabalham a neuropsicopedagoga Suélen Marçal Silveira e a psicóloga Marcia Mansur Segredo, desenvolvendo um trabalho com materiais adaptados e estruturados sabendo a importância de recursos alternativos e metodologias específicas para este modo diferente de pensar e se comportar. “Através do grupo de TEA temos o objetivo de entender como uma pessoa com autismo pensa, vive, aprende e responde ao ambiente, com a finalidade de promover a aprendizagem com independência, autonomia e funcionalidade”, comenta Suélen . 

Também têm outros atendimentos especializados como fonoaudióloga, musicoterapia, equoterapia, fisioterapia, informática, dança, educação física e artes.

“Temos a preocupação em oferecer um suporte aos familiares com encontros grupais ou atendimentos individuais realizados pela psicóloga e assistente social , como também encontros com todos os profissionais para orientação aos pais”, conclui Márcia.

Suélen destaca que são realizadas, mensalmente, reuniões com os professores da rede municipal, estadual, particular e de escolas de municípios vizinhos com objetivo de manter uma troca de informações quanto a evolução de cada  assistido e possibilitar um trabalho integrado entre Apae, escola e família .

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