ANO: 25 | Nº: 6384

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
20/06/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Não se realiza quem jamais se frustrou

“Não há despertar de consciência sem dor.

As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo

para não enfrentar a própria alma. Ninguém se torna iluminado

por imaginar figuras de luz, mas sim por se tornar

consciente da escuridão.”  - Carl Gustav Jung

 

O medo pode ser uma espécie de preguiça existencial. Um álibi para não sair do lugar, não se arriscar, não se distinguir demasiada e perigosamente dos demais a ponto de ser original. O medo tem um fator de preservação da espécie, sem dúvida, mas ele também nos torna patéticos e previsíveis. O medo praticado como esporte diário expõe e concretiza a pior versão de nós mesmos. Podemos pensar um pouco e ousar questionar porque aprendemos a respeitar mais nossos medos que nossa ousadia.

Qual o motivo de nossos temores merecerem mais respeito que o aprendizado que viria após enfrentá-los?

Quantas vezes nosso medo nos impede de crescer?

Quantas possibilidades de evolução desperdiçadas apenas para não sair da zona de conforto?

Quanto crescimento cuidadosamente evitado pelo simples medo de errar, de se expor?

Por que o temor do sucesso alheio é mais apavorante que fracassarmos como pessoa?

Temos medo de morrer, mas não tememos ocupar nosso valioso tempo com todo tipo de coisa irrelevante.

Por pavor do escuro desconhecemos os contornos de nossa própria sombra.

Temos pânico da violência, mas não pensamos se nossas escolhas refletem paz ou ódio.

Queremos o êxito, porém temos receio do percurso tortuoso e não seguro para chegar até ele.

Desejamos novas paisagens sem sair do lugar. Queremos a casa limpa sem sujar as mãos na faxina. Aspiramos à erudição sem estudar, sequer ler um livro. Boa forma e saúde é nosso objetivo, porém sem mexer o corpo. Desejamos opinar sobre tudo, mesmo desconhecendo o assunto, sem pagar o preço da antipatia alheia. Almejamos relações verdadeiras, mas não suportamos críticas. Queremos o absurdo da vida sem dualidade. Acreditando nisso estamos preparando novas gerações para surtar diante da mais banal frustração. Multidões de despreparados e iludidos acreditando ser possível ter na mão apenas a face da moeda que mais lhe agrada. Todos acreditando em sucesso sem trabalho, destaque sem esforço.

Cruel e caríssimo engano.

Para se chegar até a luz é necessário aceitar e conhecer a própria escuridão.

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