ANO: 24 | Nº: 6182

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
22/06/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Falta de hormônios

David Stamos, no livro “A evolução e os grandes temas: sexo, raça, religião e outras questões”, ao criticar aqueles que negam o valor que a teoria evolutiva tem no campo da biologia, aponta que “o raciocínio que não é baseado em evidências, que as ignora, ou mesmo luta contra elas, é um raciocínio que induz à condenação moral”. Em outras palavras, submeter a razão à ignorância ou mesmo a uma causa política qualquer, pode trazer implicações negativas no âmbito das relações humanas. Com o ocaso da ideia de verdade, a alta cultura fica refém do relativismo e de discursos sentimentais, não contribuindo para um florescimento humano.

Chimamanda Ngozi Adichie, famosa escritora nigeriana, teve recentemente publicado no Brasil o livro “Sejamos todos feministas”. Essa pequena obra, que foi classificada pelo professor mega pop star Leandro Karnal (mesmo antes de ter lido o livro!) em seu Facebook como “provocadora e inteligente”, tenta destruir alguns estereótipos que rondam o termo feminismo, buscando extrair um real significado para essa corrente teórica. Pois bem, eis que entre diversas afirmações vazias de significado ou que afrontam a razão, surge a seguinte passagem acerca das relações de poder entre homens e mulheres: “a pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos”. Pelo visto, para Chimamanda, a biologia não passa de uma roupa démodé. Em que sentido?

Ora, de acordo com o cientista alemão Volkmar Weiss, “as influências genéticas no intelecto existem, mas estão mergulhadas na interação entre genes, psicologia e desenvolvimento. Não são diretas, nem irreversíveis, nem inescapáveis, nem inevitáveis”. Em termos exclusivamente genéticos, poderia se afirmar que a ocorrência da transmissão da capacidade de ser inteligente não equivale ao repasse da inteligência (que depende do desenvolvimento daquelas capacidades). Seguindo a mesma linha, o biólogo Hamilton Correia, da Universidade de Coimbra, declara que “parece existir um conjunto de genes direta ou indiretamente relacionados com alguns hormônios que funcionam como fatores de crescimento e de desenvolvimento dos neurônios”, reforçando que tais hormônios influenciam diretamente a capacidade cognitiva do indivíduo. Correia ainda aduz que, face uma intricada cadeia que envolve o cromossomo X, “o sexo feminino é mais importante que o sexo masculino na transmissão da inteligência para a geração seguinte”. Ou seja, em linhas gerais, a inteligência vem da mãe! Tudo isso em conexão com um estudo que indica que mães que se exercitam durante a gravidez tem a capacidade de estimular o desenvolvimento e o crescimento do cérebro do bebê por expelir (e transmitir) o hormônio cortisol.

Em resumo, Chimamanda errou esparramando uma inverdade. Como o feminismo erra continuamente. Mas em “Para educar crianças feministas: um manifesto”, a incansável ativista nigeriana conseguiu ofertar uma boa lição para a educação de uma criança: “ensine-lhe o gosto pelos livros [...] Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la a ser tudo que ela quiser ser”. Realmente, crianças que leem não afirmam que os hormônios não influenciam a inteligência.

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