ANO: 23 | Nº: 5793

Fernando Risch

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Escritor
23/06/2017 Fernando Risch (Opinião)

Não sei quantas vezes pensei em desistir

Na realidade em que vivemos, talvez não exista uma pessoa que não esteja exausta de absolutamente nada. Exausta do nada que é esperar a recompensa de um esforço sobre-humano que tarda acontecer por variáveis das mais diversas. Do chão ao teto, do empregado ao empregador, do realista ao sonhador, todos estamos juntos nessa grande corrente circular que gira, dependendo de cada um dos elos para funcionar.

Correr atrás da máquina é a pior sensação que existe. Há quem diga que o esforço premia, que a meritocracia é palpável e real e que se persistirmos com trabalho duro, seja ele qual for, colheremos os frutos. Talvez isso, às vezes, aconteça, mas nem sempre. Remar e remar, sem encontrar a costa para estacionar o barco, é mais regra do que exceção. Depender de terceiros para as coisas acontecerem; e os terceiros dependendo de outros terceiros para suas coisas acontecerem. E nada acontece. Ou por falta de comprometimento e vontade, ou porque desistiram.

Não sei quantas vezes pensei em desistir. Mas, desistir não é bem uma opção. Eu poderia desistir dos meus sonhos, não da minha realidade. Desistir e aceitar o enfadonho destino dos acomodados. Talvez eu o faça, caso eu siga correndo e siga não saindo do lugar. Quando a cabeça pesa e todos os remédios não apresentam a cura, o que eu poderia fazer?

Eu posso desistir. Posso levar uma vida normal e aceitar que não há céu para me acolher. Há quem não possa. Há quem, nos sonhos mais delirantes, veja uma realidade simples com fascínio. Esses não podem desistir. Se desistirem, morrem. E ninguém quer isso. Queremos apenas paz. Mas o mérito não vê paz, vê apenas o esforço incessante de nossas pernas correndo atrás do impossível, contra o giro do relógio, até perdermos, cansados, para a vontade de desistir.

Não sei quantas vezes eu pensei em desistir. Creio que não será agora. Não é bom ser derrotado para si mesmo. Perder a batalha contra uma cabeça preocupada e pesada, que não tem a certeza do próximo dia, do próximo mês ou do próximo ano. Mas que certeza nós temos, se não a única e imutável certeza de que teremos uma luta invencível contra as engrenagens que movem o mundo e padecermos duros, mortos e esquecidos?

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