ANO: 25 | Nº: 6335

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
24/06/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

A vida não é só isso

Não há a menor dúvida de que as redes sociais chegaram para ficar, revolucionaram as formas de nos comunicarmos, permitiu encontros e interações até então inéditas e impensadas, viabilizou a organização de grupos e manifestações com as mais diversas finalidades, inclusive com grande repercussão política em alguns países como ocorreu com a pioneira “Primavera Árabe” e uma série de outras importantes manifestações populares mundo afora, inclusive no Brasil em 2013.

            Tratam-se de aplicativos sedutores, envolventes, bem construídos e que nos dão a sensação ou ilusão de que podemos ser lidos, ouvidos ou notados pelo mundo todo e, ainda por cima, com o retorno instantâneo através das curtidas, “likes”, comentários, compartilhamentos e “retweetadas”.

            É tão envolvente que, com exagero e ironia, chegam a dizer: “a gente entra no Facebook para dar uma olhadinha e, de repente, já é natal.” Um passatempo que faz passar o tempo de verdade e muito rápido. Tanto que chega a atrapalhar planos e compromissos da vida real. O tema já começa até a ganhar a atenção de especialistas preocupados com os viciados em redes sociais. Tarados por Wi-Fi, devoradores de pacote de dados, conectados 24 horas por dia, sete dias por semana: na fila do banco, do supermercado, no restaurante, na festa, no velório, na aula, na reunião, na igreja, atravessando a rua, na cama, no sofá e até dirigindo ou quando vai ao banheiro. Como diz aquela música: “na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.” É impressionante!

            Tempos atrás, fiquei próximo desse ponto, mas um amigo alertou: “A vida não é só facebook!”. Na hora fiquei meio chateado, como todo viciado que acha que tem controle sobre o vício, que pode parar a qualquer momento e que não é bem assim como os outros estão pensando. Todavia, ainda que chateado, o alerta do amigo foi muito útil, pois, de fato, eu estava superestimando aquele mundinho virtual em detrimento do mundo real.

            Enquanto pensava sobre aquilo, assisti uma “palestra” que tinha meia dúzia de gatos pingados. Desta meia-dúzia eu era o caçula, ou seja, quase todos os outros eram sexagenários, setuagenários ou de mais idade ainda. De repente o palestrante tenta interagir perguntando a todos se eles tinham visto nas redes sociais aquilo sobre o qual ele falava. Fez-se um silêncio retumbante e achei muita graça da situação. Gargalhei por dentro e fiquei a pensar que aquele palestrante estava confundindo o mundo virtual com o mundo real. Que aquele mundo que era relevante para ele, não era para os seus interlocutores.

            Mais recentemente agora, o ministro Napoleão Maia, do TSE, teve um chilique ao vivo e em cores, ao reagir a um suposto boato publicado nas redes sociais que colocaria em dúvida sua imparcialidade no julgamento da chapa Dilma/Temer. Creio que a torcida do Flamengo, do Vasco, do Inter, do Grêmio, do Bagé e do Guarany não sabia de nada, mas a partir daquele clamor, todo mundo que não sabia ficou interessado em saber e, assim, aquilo que ficaria restrito a um pequeno público, das pouco confiáveis redes sociais, ganhava uma dimensão nacional imensa, só porque o vivente superestimou o seu mundinho virtual.

            Se por um lado não podemos ignorar ou esnobar as redes sociais, por outro não podemos superestimar o universo virtual que acessamos a partir delas. Ainda temos muito que aprender sobre as redes sociais, mas não ao preço de desaprender a interagir com os outros no mundo real. 

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