ANO: 25 | Nº: 6359

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
01/07/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Academias ainda

Akademos, de onde provém a palavra “academia” foi o herói de Ática que revelara aos gêmeos Castor e Pólux onde Teseu mantinha Helena de Troia como prisioneira; Teseu era personagem ingrato, já abandonara Ariadne, que o havia auxiliado a sair do labirinto de Minotauro, deixando-a adormecida sobre um rochedo para desposar Hipólita, a rainha das Amazonas. Zeus, apaixonado por Leda, esposa de Tíndaro, toma a forma de um cisne e vai nadar onde ela estava se banhando. Leda acaricia o cisne, e tempos depois é tomada pelas dores do parto vê sair de seu ventre dois ovos, um deles com Castor e Helena, filhos de Zeus; e o outro com Pólux e Clitemnestra, descendentes de Píndaro. Morto Castor, o irmão Pólux suplica a Zeus que o ressuscite, apenas conseguindo que eles dividam a imortalidade, alternando-se em convivência com a vida e a morte. Essa metáfora é significativa para os escritores eis que suas obras ora estão reverenciadas, ora no esquecimento.

O local onde se instalou a Escola de Platão, ou “akadêmeia”, tinha em seus jardins a estátua e o túmulo de Akademos, razão porque as aulas eram ministradas pelo filósofo ao ar livre.

A primeira entidade brasileira foi fundada em 1724, na Bahia, por instâncias do vice-rei Vasco Fernandes César de Menezes, visconde de Sabugosa, que lhe atribuiu a curiosa denominação de Academia dos Esquecidos.

As academias, em geral, têm como objetivos a preservação da língua, o culto do idioma, a divulgação de autores clássicos e contemporâneos, estimulando o conhecimento e a leitura através de atividades culturais operadas através de debates, conferências, palestras, cursos e publicações, costumando ter biblioteca que permita a consulta aberta para todos, confrades ou não, proporcionando, ainda, a convivência amistosa e harmônica entre os membros que a compõem.

Diz o poeta Carlos Nejar que a Academia é a junção de corpos numa só alma, ou a junção de almas num só corpo, por ser uma empreitada de gerações, de sonhos, de livros, de ideias e de imaginações.

Como ente cultural uma academia não acolhe apenas literatos, mas precisa de intelectuais de outras áreas, como historiadores, cientistas, geógrafos, jornalistas, médicos e outros sábios, não podendo ser um ambiente fechado, mas que se integre em sua coletividade, tanto que tais instituições, às vezes, enveredam por outros campos como a exploração científica ou somente a preservação da língua e prestígio da literatura do país.

Tendo ápice no século passado posteriormente as academias passaram a ser tidas como guetos de “imortais” apenas preocupados com suas produções ou privilegiados com algum renome, portanto como verdadeira classe de iluminados, o que representou uma quarentena em suas elogiadas atribuições e fenecimento parcial de suas atividades, salvo algumas de reconhecida reputação e seriedade.

Esse panorama tem se alterado agora e se constata, felizmente, o recrudescimento de tais iniciativas, ante a aceitação de suas elevadas funções para a língua nacional e a cultura do povo.

Fonte: “O mito das academias”, de José Renato Nalini (org.). São Paulo: Imprensa Oficial, 2009.

 

 

 

 

                           

                               

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