ANO: 254 | Nº: 6355

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
01/07/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Intolerância à porcaria

            Meu irmão por décadas bebeu leite e derivados sem nunca manifestar nenhuma reação negativa ao consumo destes produtos até que, de repente apareceu com essa de intolerância à lactose.

Quando fomos visitar Punta del Este, tempos atrás, mesmo temendo alguma rejeição, ele não resistiu à tentação de consumir iogurte e queijo da excelente marca Conaprole. Para surpresa geral, não teve reação alérgica ou indisposição após o consumo daqueles derivados do leite.

            Em poucos dias de consumo, concluímos que na verdade ele não era intolerante à lactose, mas sim à porcaria. Sim, às porcarias que colocam em boa parte dos produtos lácteos de baixa qualidade que são comercializados aqui em “terra brasilis”. Não é somente a carne que é fraca, o leite também! Todos sabemos do coquetel químico que já foi – e talvez ainda seja – misturado ao nosso leite longa vida. Sabemos, também, que os iogurtes estão sendo substituídos por bebidas lácteas que têm cara, gosto e cheiro de iogurte, mas não são iogurte. E toda esta maquiagem envolve a adição de soro de leite (subproduto do queijo), amido, goma xantana, fermento lácteo além dos químicos corantes, conservantes e aromatizantes. Traduzindo, a chance de que o leite seja o culpado pela dor de barriga após o consumo de uma bebida láctea é pequena, visto que quase a metade do produto não é leite.

            O que interessa é que por conta desta crescente e contagiante onda de intolerância à lactose, cresce na mesma proporção a oferta de produtos lácteos sem lactose, inclusive leite. Leite sem lactose, para os leigos, parece ser o mesmo que um leite sem leite, na mesma linha do que ocorre com outros produtos como o café sem cafeína (descafeinado), chocolate sem cacau, cigarro sem nicotina, doce sem açúcar, cerveja sem álcool, macarrão sem farinha de trigo, tecido não tecido, madeira de plástico etc.

            É crescente a oferta de produtos sem seus elementos essenciais, sem aquilo que os caracteriza e até denomina. E até com pessoas é possível perceber algo similar. Donald Trump, nos EUA, e João Dória, em São Paulo, se elegeram com o discurso de não serem políticos, ou seja, exemplares pioneiros de “políticos não políticos”.

            Não há dúvida de que isso é uma tendência e que não é de hoje, confirmando que vivemos em uma era onde a aparência é mais importante que a essência. É claro que no caso dos alimentos e bebidas, na maioria dos casos, há uma boa intenção (ou, pelo menos, não há uma clara má intenção) na utilização de artifícios para mascarar ou remover elementos essenciais dos produtos. Já no caso das pessoas que usam e abusam de artifícios para esconder ou alterar sua personalidade ou aparência, a prática pode não ser tão honesta.

            No geral, isso tudo revela um sentimento contemporâneo crescente, caracterizado pelo desejo de consumo ou aceitação do falso, do maquiado, do desnaturado. Nada contra – até porque ser contra alguma coisa hoje em dia, além de antipático, via de regra é mal interpretado –, mas me sinto sinceramente incomodado com tudo isso, pois vejo que boa parte dos problemas que temos hoje, no fundo no fundo tem relação com esta aceitação ou tolerância com o que não é autêntico.

 

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