ANO: 25 | Nº: 6278

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
06/07/2017 João L. Roschildt (Opinião)

A sabedoria dos garçons

Restaurantes e bares são ambientes repletos de situações que têm o condão de produzir reflexões sobre a maneira com que a natureza humana se comporta. Nesses riquíssimos laboratórios de convivência social, inúmeras possibilidades de interpretação do Homem são abertas em cada ação, conversa ou olhar.

Eu e minha noiva costumamos ir a tais locais. E uma situação rotineira sempre chama atenção: a maneira com que os garçons servem o que solicitamos. Por exemplo, se pedimos uma Coca-Cola e uma Teem (para a pior sede!), o primeiro refrigerante sempre será direcionado a minha pessoa; se solicitamos uma torta fria de frango e uma fatia de torta de chocolate com morangos, novamente a primeira é colocada na minha frente; se requeremos um café e um suco de laranja, eis que o aroma de café desde a cozinha já é inclinado compulsoriamente para o meu nariz; e se solicitamos uma cerveja escura e outra de trigo, com certeza terei de encarar um copo com o líquido preto. O problema é que prefiro Teem, estimo tortas doces, gosto de suco de laranja e aprecio uma Weissbier. Mas a inversão instintiva dos garçons repete-se exaustivamente em todas as cidades que visitamos. Raríssimas vezes questionaram quais são os nossos gostos. Por qual razão isso ocorre?

No livro “Pequeno tratado da intolerância”, de Charb, ex-diretor do jornal satírico Charlie Hebdo e que foi brutalmente assassinado em famoso atentado terrorista de 2015, há uma pequena crônica (“Morte aos garçons machistas!”) em que as descrições acima soam como cópias. Charb, com sua acidez característica, afirma que “pouco importa que seja um garçom ou uma garçonete que os atenda [...] o sexismo é unissex”. O autor expõe que entre um café e uma cerveja, essa última será sempre colocada na frente do homem pois é o “papai” que volta bêbado do trabalho, ao passo que entre uma cerveja escura e outra clara, aquela será colocada na frente do homem porque o preto representa a virilidade, o mistério e a impureza. E conclui: “quantos séculos ainda serão necessários para que esse tipo de preconceito seja definitivamente arquivado no Museu da Idiotice?”. Charb, que era ligado ao Partido Comunista Francês, colocou na conta do machismo as atitudes dos garçons. Será?

A ciência contemporânea tem alguns consensos muito bem explicados. Um deles diz respeito às diferenças abissais entre os cérebros de homens e mulheres, o que acarreta em diferentes habilidades. É público, notório e comprovado cientificamente que mulheres possuem mais sensibilidade, atenção e capacidade estética; homens, por sua vez, são mais diretos, objetivos e práticos. Outro aspecto é que os paladares de homens e mulheres também são distintos. A relação entre hormônios e os neurotransmissores faz com que “eles” prefiram gorduras e comidas amargas, ao passo que “elas” preferem alimentos doces. Além disso, o olfato feminino é mais aguçado que o masculino. Juntem todos esses fatores. Agreguem anos de evolução de espécie. Será que os garçons não são mais sábios ao interpretar instintivamente as (quase) indefectíveis leis da biologia ao contrário daqueles que politizam até mesmo o ato de servir um alimento ou bebida? Enquanto Charb pediu a morte aos garçons machistas, minha noiva e eu seguimos pedindo alimentos que contrariam a biologia... e rindo da natureza humana.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...