ANO: 23 | Nº: 5740

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
08/07/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A família segundo Marx e Engels

O socialismo tem longínqua raiz na eterna luta entre ricos e pobres, os que têm e os que não têm, na constante reivindicação igualitária, no espírito coletivista, afirma Chevallier, sem que nenhuma doutrina eficaz tivesse sustentado esse espírito antes, nem na Antiguidade, Idade Média ou na Revolução Francesa, pois falar-se em socialismo, no sentido moderno, foram necessárias transformações econômicas e sociais, ligadas ao desenvolvimento da grande indústria e também ao surgimento do proletariado, classe nova e à parte; e o protesto contra o individualismo econômico (liberalismo ou capitalismo), segundo dito pensador francês.

Aparecem, assim, a partir de 1844, as obras de Saint-Simon, Fourier, Owen, Louis Blanc, Proudhon, constando que a palavra “socialismo” teria sido imaginada por Pierre Leroux em 1832.

Em 1839, a chamada “Liga dos Justos”, sociedade alemã que adotava a divisa “todos os homens são irmãos”, junto à entidade secreta “Estações”, de Blanqui e Barbès, promove fracassada insurreição operária em Paris. Em fevereiro de 1848, fruto do antecedente publica-se edição precária, com apenas 23 páginas, de o “Manifesto do Partido Comunista”, escrito por dois jovens intelectuais: Karl Marx, com 29 anos, alemão de origem judia, que estudara Direito nas universidades de Bonn e Berlim e doutor em filosofia pela universidade de Iena, e Friedrich Engels, com 27 anos, alemão também formado na universidade de Berlim, filósofos emergentes, seguidores de Hegel e colaboradores de jornais socialistas. Escrevem o texto a pedido da Liga dos Comunistas, associação internacional de trabalhadores, clandestina, também editora da Revista Comunista, e que preconizava o desmoronamento da burguesia, o domínio do proletariado, a abolição da velha sociedade fundada sobre o antagonismo de classe; e a fundação de outra, sem classes ou propriedade privada, propósitos adotados no Manifesto.

O pequeno livro compreende os prefácios de Marx e Engels e cinco capítulos: a) Burgueses e proletários, b) Proletários e comunistas, c) O socialismo reacionário, d) Os comunistas e a oposição, e) Final, onde consta a epígrafe: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”, em verdade dístico que constava dos estatutos da Liga dos Comunistas. Nas primeiras linhas, os autores advertem que “um espectro ronda a Europa”, o do Comunismo contra quem se unem, em guerra santa, todos os poderes para conjura-lo: o papa, czar, radicais franceses, polícias alemãs e intelectuais.

Sobre a acusação de que busque a supressão da família, aludem que a família burguesa se baseia no capital e sobre o ganho privado, e somente ela existe, eis que seu complemento é a sua ausência forçada entre os proletários e a prostituição pública, formas que desaparecerão com o perecimento do capital. Dizem, ainda, que a enganadora retórica burguesa sobre a família e a educação, sobre a relação sagrada de pais e filhos, torna-se tanto mais repugnante quanto mais, em consequência das ações da indústria moderna, todos os laços de família dos proletários são rasgados e os seus filhos transformados em simples artigos de comércio e instrumentos de trabalho.

Sobre o coro da burguesia de que os comunistas queiram introduzir a comunidade das mulheres, verberam os autores que o burguês vê a sua esposa como mero instrumento de produção; ouve dizer que os instrumentos de produção devem ser explorados coletivamente e concluem que o mesmo destino caberá às mulheres, sequer suspeitando de que a verdadeira meta seja acabar com elas como meros instrumentos de produção.

De resto, não há nada mais ridículo do que moralíssima indignação dos burgueses sobre a comunidade oficial das mulheres que eles pretendem que seja aberta e oficialmente estabelecida pelos comunistas. Os comunistas não precisam introduzir o amor livre, ele existiu quase sempre.

Os burgueses, segundo Marx e Engels, descontentes com o fato de que as esposas e as filhas dos proletários estão a sua disposição, isso sem falar das prostitutas em comum, têm um prazer especial em seduzir as esposas uns dos outros. O casamento burguês é, na realidade, um sistema de esposas em comum, portanto, quando muito, poder-se-ia censurar aos comunistas por desejarem introduzir um sistema abertamente legalizado de amor livre, em substituição a outro hipocritamente escondido. É de resto evidente que a supressão do sistema de produção deve trazer consigo a supressão do amor livre que brota daquele sistema, isto é, da prostituição pública e também privada.

No próximo ano completam-se 170 anos da publicação da obra.

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Fontes: Karl Marx e Friedrich Engels. “Manifesto do Partido Comunista”, 3e. São Paulo: EDIPRO, 2015.Chevallier, Jean-Jacques. “As grandes obras políticas de Maquiavel a nossos dias”. Rio de Janeiro: Livraria AGIR editora, 1957.

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