ANO: 23 | Nº: 5791

Melissa Louçan

melissajornalminuano@gmail.com
Jornalista formada na Universidade da Região da Campanha (Urcamp) em 2009. Desde Setembro de 2011 faz parte da equipe de reportagem do Jornal MINUANO, na editoria Geral. Em Março de 2017 assumiu a editoria Empreendedor, em que traz para os leitores as últimas novidades do mundo dos negócios em Bagé.
17/07/2017 Bagé 206 Anos especial

Com iniciativa para continuar avançando

Foto: Antônio Rocha

O trabalho começa às 19h para Viviane Ferreira da Silveira, 49 anos. Ela mora no Conjunto Habitacional Ney Azambuja e trabalha no centro da cidade, em uma empresa de segurança particular. Viviane tem, à sua frente, monitores de diferentes estabelecimentos - particulares e comerciais. Ela fica por 12 horas no posto, para retornar 36 horas depois.
Viviane é operadora de central de monitoramento há dois meses. A funcionária é quem verifica quando tocam os alarmes dos prédios. Assim que um deles dispara, faz ligações e encaminha fiscais até os locais necessários. A rotina se repete há cerca de dois meses, quando iniciou na função.
Viviane foi contratada pela empresa há cinco meses, inicialmente para atuar no estoque. Ela é o exemplo de uma das 786 admissões no setor de serviços, o que mais empregou desde o início do ano em Bagé, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). A operadora de central teve que procurar experiências diferentes no mercado após ser demitida da empresa onde trabalhou por 15 anos como telefonista e secretária. O motivo do desligamento foi o corte de gastos. “Eu e mais dois ou três dos funcionários mais velhos fomos demitidos. Mais tarde, até a minha vaga foi extinta”, relata.
Um ano antes de perder o emprego, Viviane havia realizado um curso técnico em Administração. “Essa foi uma das coisas que me ajudou a conseguir trabalho de novo”, analisa.
Além da qualificação, a indicação de amigos para vagas disponíveis também foi essencial para voltar ao mercado. “Eu largava currículo onde sabia que estavam precisando”, recorda.
Em abril, ela foi contratada por um hotel, onde trabalhou como governanta, administrando o trabalho de camareiras e manutenção do espaço. Ela atuou no local durante oito meses e pediu demissão após ser chamada em uma clínica de exames laboratórios – onde também havia deixado um de seus currículos.
Viviane conta que decidiu apostar no novo emprego por acreditar que tinha mais relação com o seu perfil. Mais uma vez, o trabalho era totalmente diferente do que aquele em que esteve por 15 anos. Ela lembra que precisou, por exemplo, estudar os tipos de exame oferecidos. Após oito meses, foi demitida novamente.

A superação de um gigante

Empresas também superam adversidades. A trajetória da rede construída pela família Obino, que iniciou na década de 1950, ilustra bem este contexto. Em seus primórdios, a Obino funcionava como importadora. A partir da loja matriz, fundada em 1962, por Téo Obino, 46 unidades se espalharam por 35 municípios gaúchos, enfrentando alterações monetárias e reformulações. Inovando no marketing, se tornou a primeira loja do Estado a contar com crediário próprio, na década de 1980, quando surgiu o famoso slogan “Fiado só na Obino”.
A rede, entretanto, não ficou imune à crise econômica. Há cerca de uma década, passou por um período turbulento na esteira da instabilidade que afetou todo o País. Em seu encalço, a situação trouxe a necessidade de fechamento de cerca de 20 lojas no Estado. O processo de recuperação iniciou com Pedro Ernesto Capiotti Obino. Aos 30 anos, o jovem formado em Administração com ênfase em Empreendedorismo e Sucessão, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), trouxe ideias inovadoras e o fôlego de juventude que a rede necessitava para se consolidar, novamente, como uma das principais redes do Estado.
Pedro Ernesto Obino não gosta de relembrar os difíceis momentos que vivenciou ao chegar à loja. Porém, como o presidente da rede, teve de tomar decisões difíceis, inclusive algumas apontadas por uma empresa de consultoria contratada para auxiliar no momento de transição. “A consultoria traçou um plano de reestruturação da empresa que é seguido até hoje, após passarmos por todo o processo de recuperação judicial. Entre 2010 e 2011, trabalhamos com a readequação de custos, adequando para o patamar de vendas da época”, comenta.
A rede, que hoje é responsável por mais de mil empregos, diretos e indiretos, também intensificou os investimentos no capital humano, através da capacitação constante dos funcionários da rede. “Foi então que passamos a apontar para o que é nosso diferencial, que são as pessoas. Desde 2012, trabalhamos com o método de vendas Obino, que é um treinamento realizado ininterruptamente, com todos os funcionários da rede”, afirma.
Além disso, tanto o layout das lojas quanto a marca passaram por atualização, a fim de adaptá-la aos novos tempos que iniciavam. Nessa época, também foi reformulado um dos principais itens de aproximação da empresa com os consumidores, o Caminhão da Sorte Obino, que entrega prêmios mensais aos clientes.
Outro diferencial é o alcance do atendimento. “Como sabemos que existe dificuldade de acesso em alguns locais do Estado, vamos até onde os clientes estão para facilitar a vida deles, possibilitando que eles possam comprar as coisas necessárias sem que precisem ir até o centro da cidade”, destaca, ao salientar que, atualmente, a empresa possui processos e gestão sólida, com controle de fluxo de caixa e uma evolução que pode ser notada desde a entrada do cliente na loja. “Não adianta empreender se a ação não é notada pelos clientes”, encerra.

Investir em tempos de crise

Ao contrário do setor de serviços, o comércio teve, até maio, mais desligamentos do que admissões – 31 no total. No ano de 2014, o Caged registrou, nesta área, uma variação positiva de 182 contratações. Já no ano seguinte, 114 pessoas foram demitidas. Somadas todas as áreas, foram 287 demissões na Rainha a Fronteira. Em 2016, o número de rescisões assinadas foi maior: 194 – sendo 62 de empresas que lidam com atividades de comércio. Contrariando as estatísticas, o empresário Gilberto Alagia (Beto), 62 anos, decidiu contratar.
Para Gabriel Alagia, a criação da nova empresa do setor de calçados, localizada na avenida Sete de Setembro, representa o primeiro passo no sentido de seguir o caminho do pai, que tem outras empresas, como empreendedor. Somado a isto, conforme relata Beto, estava o surgimento de uma boa oportunidade de ocupar um ponto comercial importante na cidade. Mesmo diante do investimento, ele prefere controlar o otimismo. “A crise é real e gravíssima”, avalia.
Alagia também comenta que o comércio é “atingido em cheio”, e que é difícil ter uma perspectiva de melhora a curto prazo. O excesso de carga tributária é um dos fatores apontados como prejudiciais pelo retrocesso na economia. O empreendedor criticou que o Estado teria ido à contramão da crise, aumentando as taxas, quando deveriam ser reduzidas, além de gastar “muito e mal”, sem cumprir suas funções básicas, de oferecer saúde, segurança e educação.
Para manter o investimento neste momento, Alagia comenta que a ideia é oferecer um mix de produtos diferentes do que há no mercado. Ele afirma que não existe uma fórmula definida para o sucesso, mas que a inovação nas vendas e a distância do sistema financeiro são itens essenciais.

Reação do poder público

Em seus 206 anos de história, Bagé já foi reconhecida como uma das mais prolíficas cidades do Estado, rota obrigatória de grandes indústrias, que reconheciam o potencial da região, próxima à fronteira com o Uruguai e ao porto de Rio Grande. A quantidade de matéria-prima disponível no Pampa era um prato cheio para visionários, como o Visconde de Ribeiro Magalhães e sua charqueada de Santa Thereza. Sobreviver às crises é uma marca bajeense.
Não por acaso, o desenvolvimento da cidade iniciou pela zona leste, na charqueada que foi a primeira área a receber energia elétrica na cidade. E é exatamente nesta região que está localizado o Distrito Industrial. Desenvolver o local é uma das prioridades da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação.
O responsável pela pasta, Bayard Paschoa Pereira, destaca que um dos grandes gargalos da região é a ausência de indústrias. Para ele, é necessária a criação de uma cultura industrial regional. A reação pode vir através do programa “Empreende Bagé”, criado para incentivar a ocupação do distrito.
Junto à Secretaria Estadual do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia, o município obteve a negociação das áreas com preços razoáveis para a venda dos lotes e crédito adequado. “O valor do hectare no Distrito Industrial de Bagé é o mais baixo entre todos os seis distritos do Estado, R$ 19 mil”, destaca. Durante o lançamento do programa, 19 empresas locais se mostraram interessadas em ocupar os espaços. “Isso nos leva a projetar que poderemos, sim, desafiarmos as dificuldades e ampliarmos o percentual da indústria no nosso Valor Agregado Bruto (VAB) e no nosso Produto Interno Bruto (PIB), hoje girando em torno de 13%. Nossa meta é ao fim do governo ultrapassarmos os 20%”, projeta.
Responsável por 57% do VAB, o comércio bajeense sofria com a concorrência direta das feiras itinerantes. De acordo com Bayard, as feiras retiram elevadas cifras da economia local, inviabilizando diversas empresas de pequeno e médio porte. Os meios jurídicos foram uma forma de enfrentamento encontrada pelo município para resguardar os empresários locais, impossibilitando a instalação das feiras. A criação de alternativas aos vendedores ambulantes e a criação do programa Sábados Azuis também foram tentativas de recuperar e blindar a economia proveniente do comércio.

Mais imagens

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias do caderno

Carregando...