ANO: 24 | Nº: 6104

Fernando Risch

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Escritor
21/07/2017 Fernando Risch (Opinião)

Tudo está no seu lugar, Sant’Ana

Não sei cantar Benito di Paula. Aliás, sequer conheço muito suas músicas. Mas aprendi uma. Não estou certo se Paulo Sant’Ana também sabia, mas após uma vitória do Grêmio em um Grenal ele cantou “Tudo está no seu lugar”. Cantou com arritmia e fora de tom. Levei aquele suingue como sendo o original da canção e a cantava desde então daquela forma. Um grito alto e prolongado, tudo estáááááá, uma pausa dramática, silêncio, no seu lugar.

No absurdo de uma vida com regras próprias, Paulo Sant’Ana foi original numa trajetória que misturou o pessoal, o profissional e o ficcional, com o ser humano misturando-se ao personagem, unindo paixões à razão, transformando-se num objeto único, controverso, que desperta simpatia e ódio, que extrapola o sarcasmo e a ironia, que multiplica subversividades, transformando-as em regras a serem conservadas, recriando realidades, estando certo ou errado.

Do debochado comentarista esportivo ao boêmio cronista de jornal, Sant’Ana esteve presente na vida gaúcha. Mais que isso, foi a vida gaúcha. Sant’Ana era uma mesa ocupada na Padre Chagas, era um cigarro aceso na arquibancada do Estádio Olímpico, era uma piada de gosto duvidoso no Sala de Redação, era uma história contada em pé, com pausas longas em que se escuta o silêncio dos ouvintes, em um corredor qualquer.

Paulo Sant’Ana foi o homem certo no tempo certo. Se nascesse depois, não sobreviveria à atualidade, com a pluralidade de vozes lhe dizendo o quanto está errado a todo instante e lhe limando a capacidade criativa dentro deste mundo paralelo e, acima de tudo, original. No nosso tempo, Sant’Ana manter-se-ia vivo, morto para a história. Sant’Ana morre imortal, no absurdo da sua vida e na unidade absoluta do seu gênio. Tudo está no seu lugar.

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