ANO: 25 | Nº: 6260

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
27/07/2017 João L. Roschildt (Opinião)

O tempo não para

A astúcia dos zeladores do progressismo, irmão bastardo do politicamente correto, está cada vez mais apurada. Suas artimanhas ganham contornos insólitos. A capacidade que seus porteiros têm para tentar cegar seus oponentes transformaria o pó branco lançado por Chong Li contra Frank Dux, na luta final do filme “O Grande Dragão Branco” (“Bloodsport”, no original), em um mero sopro. E mesmo o grito de desespero de Van Damme (intérprete de Frank Dux), após ficar cego durante a luta, não representaria a angústia da razão diante da falta de coerência que os expoentes progressistas demonstram em seus discursos. Em que medida?

No início deste mês, a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, em uma palestra em Belo Horizonte, resolveu fazer uma piada. Em razão de uma leitura equivocada que fez de uma peça publicitária durante um trajeto realizado de táxi, em que compreendeu ser a mesma uma crítica ao STF quando na verdade era um simples anúncio de um produto, disse: “estou igual a mulher que apanha, na hora que a pessoa pega o chicote pra bater no cachorro, ela sai correndo. De tanto que todo mundo fala do Judiciário [...]”. Ora, Cármen Lúcia afirma que brincadeiras, gestos e olhares demonstram o preconceito contra mulheres, afirma que as ministras do STF não são sequer interrompidas pois os ministros não as deixam falar (basta acompanhar as sessões do STF para ver o quanto essa afirmação é insana...), diz que tem que trabalhar duas vezes mais do que os homens para chegar no mesmo lugar que eles, foi a favor da Lei do Feminicídio, já criticou o homem branco, médio e ocidental (como assim?), foi mencionada com louvor pelos extremistas da Mídia Ninja e do site feminista Patrícia Galvão, e mesmo com tudo isso foi capaz de fazer uma piada com mulheres que sofrem de violência? Como isso foi possível? Eis a mágica, nos dizeres da ministra: “a sociedade do politicamente correto, do pensamento único é a sociedade do não pensar”. Ou seja, Cármen Lúcia cumpre a função de um agente duplo (Zigzag, o condinome do célebre Eddie Chapman): participa de todas as pautas politicamente corretas, ao mesmo tempo em que declara o quão nocivo é o discurso politicamente correto. Assim, incrivelmente, abre um espaço para fazer piadas politicamente incorretas com mulheres vítimas de violência.

Outro exemplo análogo dessa incoerência foi o desempenhado pelo ministro Luís Roberto Barroso. Recentemente, em uma cerimônia em Brasília, Barroso tentou elogiar o ex-ministro Joaquim Barbosa chamando-lhe de “negro de primeira linha”. Um dia depois, Barroso desculpou-se publicamente, alegando que deveria enfrentar o racismo que se esconde no inconsciente. Logo ele, um progressista assumido e um atuante jurista em prol de cotas raciais. Mas a culpa da frase foi direcionada ao inconsciente: um terceiro, uma entidade abstrata que não representa Barroso. Está nele, mas não é ele. É como o caso de assédio sexual perpetrado pelo ator José Mayer. O mesmo disse que a culpa de seus atos tem relação direta com os ensinamentos de uma geração. Não está em Mayer, mas na geração de Mayer. Sublime!

Mas, voltando aos ministros progressistas, se em frases do cotidiano existem flagrantes incoerências em que Cazuzianamente “tuas ideias não correspondem aos fatos”, é possível imaginar atuação distinta no STF?

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