ANO: 25 | Nº: 6309

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
29/07/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Josino

Josino de Vasconcellos Chaves, com 21 anos, dirigia-se a um fotógrafo no centro de Porto Alegre para retratar-se como médico ante a proximidade de sua formatura. Uma conquista, depois de lutas e sacrifício dos parentes. Era 14 de julho de 1915, fazia muito frio. A data, simbólica não somente pela comemoração de aniversário da constituição castilhista como pela lembrança da Bastilha.
Na Praça Florêncio de Abreu (hoje Alfândega) transitavam pessoas e crianças; pela Rua da Praia circulavam famílias, moços do comércio e operários dando vivas a determinados políticos, pois mais adiante se realizava um protesto de universitários contra a candidatura de Hermes da Fonseca a senador pelo Rio Grande.
O ambiente estava elétrico, tanto pelos vestígios da sanguinária Revolução Federalista encerrada em 1895, como pelo prenúncio de levante que aconteceria em 1923 liderado por Assis Brasil. Júlio de Castilhos falecera. Dois líderes dominavam o estado: Borges de Medeiros e José Gomes Pinheiro Machado.
Fazia pouco que o Marechal Hermes da Fonseca deixara a presidência do país e ambicionava a cadeira senatorial apoiado por Pinheiro Machado, indicação que despertava paixões inflamadas. O militar havia enfrentado com violência a Revolta da Chibata, na Marinha, despertando o rancor de muitos, o que se juntava à má lembrança da ditadura castilhista por parte de muitos rio-grandenses.
Josino juntou-se aos colegas, a manifestação engrossava e também os discursos oposicionistas, razão porque o vice-presidente do estado, Salvador Pinheiro Machado, que substituía Borges de Medeiros, acamado, ordenou à Brigada Militar que dissolvesse a manifestação com golpes de espadas e pelas “patas dos cavalos”.
O que aconteceu foi difícil de descrever, conta o Correio do Povo de 100 anos atrás, tumulto, gente correndo, caindo e levantando-se, a carga de cavalaria intensa; a multidão em pânico; piquetes em linha de ataque, espadas desembainhadas; e tiros, muitos tiros, as espingardas espocavam faíscas.
Ao entardecer, pelas ruas e cafés, mais de trinta pessoas atingidas, algumas já mortas, outras sucumbiriam depois falecidas; um fora alvejado na cabeça; outras vítimas com as vísceras expostas. Jovino, que estava perto da Casa Minerva, tombara alcançado por um projétil no abdome, de nada adiantaram os esforços médicos. Sucumbira a jovem vocação, um coração nobre. Em seu sepultamento, emocionados, ante os doutorandos, pronunciaram-se Mário Totta e Sarmento Leite.
Sem condições financeiras dos pais de Josino, seu sepulcro foi financiado pelos colegas no Cemitério da Santa Casa. Em sua lápide se advertia que o crime não ficaria impune e que fora “inapelavelmente julgado pela consciência pública”. Fala-se que durante muitos anos uma bela e desconhecida jovem deixava uma flor descansada sobre o túmulo.
Quando naquele ano, em 8 de setembro, o senador Pinheiro Machado foi assassinado por Manso de Paiva no Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, em seu depoimento o homicida declarou também que o fazia para vingar Josino, cuja mãe o abrigara certa vez em Porto Alegre, fato negado pelos pais do extinto doutorando.
O acontecimento foi lembrado por Érico Veríssimo quando Rodrigo Cambará lê a notícia num jornal do interior de Santa Maria; e a mim contado pelo Dr. Fernando Antônio Freitas Malheiros Filho, de quem Josino era tio-avô.


Fonte: Correio do Povo, edição de 15 de julho de 1915.

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