ANO: 25 | Nº: 6279

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
29/07/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

O buteco e a butique

Nestes tempos em que a ideologia de gênero se confunde e conflita com a fisiologia humana que nos divide em apenas dois grupos (homens e mulheres), falar sobre caracteres, papéis e preferências de cada sexo é, no mínimo, uma atitude temerária, sujeita ao patrulhamento ideológico e reações iradas daqueles que, além de considerarem como um novo gênero humano até aqueles que preferem shampoo sem sal, se consideram oprimidos pela maioria desencanada e/ou consideram o comportamento ordinário – indiferente a estas categorizações – como opressor.
Com a tranquilidade e profundidade de saber que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, me atrevo a navegar por estas tormentosas águas enfatizando os reflexos culturais de tendências genitais, revelados numa prosaica preferência empreendedora dos diferentes sexos.
Desde sempre, sobretudo entre meus pares suburbanos e de classe média, percebo que é muito comum entre os homens o desejo de ter um 'buteco' e, entre as mulheres, o desejo de ter uma butique. Primeiro se faz necessária uma correção: em português escorreito (não coloquial) o certo seria dizer “boteco”. Já “butique” está correto apesar do popular “boutique” da língua francesa.
Não se trata de uma mera coincidência entre os espíritos empreendedores de cada sexo, mas sim uma revelação sobre a preferência de consumo de cada um deles. Via de regra os homens consideram importante e prazeroso o consumo de petiscos, lanches e bebidas (alcoólicas ou não) e, assim, tendem a achar que todo mundo pensa do mesmo jeito. Logo, concluem que empreender nessa área terá sucesso garantido. Por outro lado, boa parte das mulheres considera importante e prazeroso andar sempre bem vestida, bem calçada, com roupas, acessórios e calçados da moda e de grifes famosas e, assim, tendem a achar que todo mundo pensa do mesmo jeito. Logo, concluem que empreender nessa área terá sucesso garantido.
Não sou especialista no assunto, mas vejo que, se por um lado esse pensamento está correto, pois o empreendedor quer trabalhar com aquilo que gosta, por outro pode estar equivocado, pois o gosto pessoal pode não ser o gosto predominante ou pode ignorar um mercado saturado exatamente por causa destas tendências características de cada sexo.
Prova disso é a quantidade de tentativas mal sucedidas nestas áreas. Pequenos empreendimentos na área de alimentos (lancherias, pastelarias, pizzarias, fast foods, bares e pequenos restaurantes) e na área da moda (butiques, lojinhas de roupas e de acessórios) abrem com a mesma rapidez com que fecham. Poucos sobrevivem e progridem. Investimento baixo, espaço físico reduzido e um faturamento proporcionalmente pequeno e inviabilizante do negócio. A frustração não demora a chegar e, com ela, a decisão doída, mas invariavelmente séria, inteligente e inadiável de não insistir naquela atividade. É uma dura lição que poderia ter sido evitada se tivéssemos sonhado menos e observado mais o mercado.
Sem querer botar água no chopp de ninguém, mas sonhe menos e planeje mais, se aconselhe, pesquise, olhe para os lados, observe empreendimentos similares nas redondezas e antes de dar um passo nesse sentido considere a possibilidade do insucesso e a necessidade de crescer aos poucos, passo-a-passo com muita paciência, criatividade, trabalho e inteligência.

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