ANO: 25 | Nº: 6405

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
01/08/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

O Show de Truman de todos nós

O Show de Truman é um filme de 1998, roteiro de Andrew Niccol, dirigido por Peter Weir e protagonizado por Jim Carrey. Conta a história de Truman Burbank um vendedor de seguros com a vida tranquila numa típica cidadezinha norte-americana. Tudo parece perfeitamente em ordem e feliz até que ele descobre que toda sua existência foi planejada para um programa de TV. Ou seja, sua vida é acompanhada e dirigida desde o seu nascimento para ser vista em cadeia nacional.
Na época em que foi lançado, era apenas uma ficção sobre a superexposição da vida privada como forma de entretenimento do grande público, antagonizando com as inquietações do ser humano que se desacomoda ao descobrir que fez parte de uma farsa, foi uma programação. Questiona-se a partir daí sobre sua felicidade, seus relacionamentos, suas conquistas, suas lembranças; seriam todas elas verdadeiras ou manipuladas?
Atualmente, podemos acompanhar o show de muitos e muitos Trumans. Ainda não sabemos quais as consequências futuras de tanta exposição da vida diária. Ainda não temos como prever qual será o resultado de tantos sorrisos falsos planejados, tantos relatos de pequenos diálogos familiares, e quantos vídeos de cenas caseiras ou íntimas que se tornaram públicas. Talvez isso tudo leve a uma grande indigestão emocional, consequência da overdose de intimidade exposta. Um sinal prévio dessa reação é a atitude que alguns jovens já demonstram de verdadeira aversão a serem fotografados por temerem o que pode acontecer com sua imagem. Parece estranho, entretanto pode-se compreender perfeitamente como atitude de defesa e autopreservação, levando-se em conta pessoas que já tem sua vida do nascimento, literalmente do momento em que saíram do ventre de sua mãe, até o primeiro dia de aula amplamente documentado e divulgado, elogiado e comentado por centenas de pessoas. Além disso, há extremos como cada passo, banho, troca de fralda, papinha, mês de vida, passeios, sorrisos, amigos, provas, chegando até o desempenho escolar como pareceres e boletins de notas, tudo vindo a público sem o consentimento desse ser que ainda não tem maturidade para escolher se isso tudo lhe é conveniente ou não.
Se esse modo de viver, onde os antigos e privados álbuns de recordações passam a ser substituídos por publicações em redes sociais, irá criar mais pessoas vaidosas e vazias ávidas por elogios fáceis ou, ao exemplo de Truman, vai proporcionar reações de ruptura e busca por privacidade e auto-realização, só o tempo dirá. O que será de nossas lembranças? O que vamos guardar em registros emocionais se tudo está publicado? Não sabemos. Enquanto isso, bom senso e cautela é só o que se pode pedir a todos os adultos que estão empolgados demais com a ainda nova notoriedade que nossas vulgares e comuns existências tem conseguido para poder lembrar da antiga canção de Lulu Santos: “... Se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer. O que eu ganho e o que eu perco ninguém precisa saber.”

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