ANO: 25 | Nº: 6362

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
03/08/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Por um sepultamento digno

Algumas lições paternas são contundentes. Em algum tempo no passado, ao constatar, com enorme surpresa, como pessoas que anteriormente aparentavam ter um excelente caráter haviam repentinamente se transformado em crápulas, meu pai afirmou: “Estas pessoas sempre foram assim (ruins). Só aguardavam a oportunidade”. É inegável que atos sorrateiros são artífices bastante úteis para o prestígio social. Nos mais diversos espaços de convívio, os indivíduos tendem a se comportar como gatos, como diria minha mãe: costumam dar um tapa e esconder a mão. E tudo isso é muito fácil de ser vislumbrado entre os SJW (“social justice warriors”, ou guerreiros da justiça social).

Há menos de uma semana, visualizei despretensiosamente, em um post de uma rede social, a seguinte mensagem: “Sou hetero, de direita, carnívoro, conservador, anti-mimi, contra drogas, pró-vida e a favor do porte de armas, como posso te irritar mais hoje?”, seguido de uma risada. Uma pessoa criticou esse post declarando que a autora seria analfabeta, mas que a respeitaria desde que com reciprocidade. Nada de anormal, afinal, por mais que discorde da opinião de analfabetismo, são juízos de valores (passíveis de serem questionados) que podem e devem ser externados caso a sociedade deseje preservar o legado da liberdade de expressão. No entanto, uma interlocutora colocou a seguinte resposta à pergunta inicial: “Continuar com vida”, seguido de um lúdico diabinho. A pessoa da primeira crítica discordou de tamanha virulência e intolerância, mas o assunto não engrenou. Engrenar? Quanta tolice de minha parte! Se a morte resolve, para que debater usando a razão?

E vejam como são as coisas. Quem demonstrou irritação com a continuidade da vida (uma forma polida de defender a morte) de heterossexuais, conservadores e toda sorte de qualificações mencionadas, é formada em Direito, é uma ávida defensora do feminismo e das pautas progressistas e já proferiu palestras levantando essas bandeiras. Mas o feminismo e o progressismo não são a encarnação da bondade e da pluralidade de ideias? Ou, em nome da causa, o extermínio de inimigos é possível? Todos que acompanham minimamente tais práticas e teorias sabem o quão recheadas de incoerências elas estão. Aliás, será que a pessoa em questão alguma vez leu algo de Edmund Burke, Tocqueville, Raymond Aron, Roger Scruton, Russel Kirk, Theodore Dalrymple, Thomas Sowell, Chesterton, Gertrude Himmelfarb, John Finnis, Robert P. George ou Ryan T. Anderson, para ser tão enfática na morte de pessoas conservadoras e que, em alguma medida, se enquadram nas outras qualificações? Sei que ela não lerá as obras desses autores: em todos há uma dose cavalar de racionalidade. Mas adianto: os conservadores não defendem o fim da vida de seus opositores intelectuais, ao contrário de várias feministas. Eis uma diferença vital. A estirpe é diferente. O nível é outro.

O caso do cotidiano virtual relatado acima é só uma expressão próxima e universal de práticas progressistas. E tenho plena consciência que não há outra opção revolucionária contra o uso da racionalidade: só a morte do opositor permite a implementação da agenda. A história dos revolucionários franceses e marxistas mostrou isso. Logo, já com a morte batendo em minha porta, será que posso pelo menos ter um enterro com flores?

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