ANO: 23 | Nº: 5793

Fernando Risch

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Escritor
04/08/2017 Fernando Risch (Opinião)

Quem deve, teme

Os 263 deputados que votaram “sim”, a favor do relatório que impede a investigação do presidente Michel Temer, não querem e nunca quiseram combater a corrupção. Quem o fez, alegando, num mantra combinado, a manutenção da “estabilidade” da economia, estava, de fato, protegendo um homem com provas palpáveis, líder de uma organização criminosa e que tem em cada um desses 263 votos “sim” um rabo preso.

A votação de quarta-feira era apenas para autorizar que Michel Temer fosse investigado. Ele não seria condenado ou preso, apenas investigado. Para isso, claro, deveria deixar o governo provisoriamente por seis meses enquanto as investigações fossem feitas. Então, para seus defensores no Congresso, as reformas eram evocadas em seus votos e o discurso da “estabilidade” e “progresso” se repetia. Bobagem. O sucessor de Temer seria Rodrigo Maia, presidente da Câmara, que poderia servir às mesmas reformas, da mesma forma que o antecessor. O problema, de fato, era o que uma investigação sobre Temer acarretaria. E quem seria levado com ela.

Durante a votação pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff, ouvia-se muito um discurso, também proferido em looping, pelo “fim da corrupção”. Ele foi repetido e repetido. Na votação contra Temer, alguns dos mesmos deputados que votaram por uma “moralização da política”, ignoraram o fato de existirem gravíssimas acusações contra o atual presidente. Comparando de uma forma simplista: uma pedalada fiscal nem se compara ao caminhão de obscenidades que se viu nos últimos meses vindo do Governo Temer, fora a compra de deputados em troca de votos, muito divulgada na imprensa e feita à luz do dia, para que todos vissem.

E por mais que as acusações contra Dilma fossem fracas, como eu acredito que eram – visto que não foi a única a utilizar a suplementação de crédito, mas a única a perder o cargo por isso (como Temer fez, três meses após assumir a presidência e durante seu mandato como vice de Dilma) –, entendia-se o posicionamento de alguns deputados a favor do processo. O bajeense Afonso Hamm, por exemplo, votou “sim” pelo afastamento de Dilma, por razões que só ele pode explicar; e “não” frente ao relatório que protege Michel Temer.

Os votos de Hamm são prova de que a votação de quarta-feira não há simplesmente uma questão dicotômica política, como no impeachment de Dilma; há bandidos comandados pelo atual Presidente da República, protegendo a si e ao seu mandante. Outro exemplo: Jean Wyllys, Maria do Rosário, Jair e Eduardo Bolsonaro proferiram o mesmo voto. Votaram “não” ao relatório que protege Temer. Algozes, desafetos, opostos politicamente, eles não simplesmente reduziram denúncias sérias a uma disputa estúpida entre direita e esquerda.

Além da estabilidade alegada – algo que não se importaram na época do impeachment de Dilma -, alguns dos defensores de Temer chegaram a admitir que ele deveria responder por seus crimes, mas só quando sair do governo. Parafraseando Gregório Duvivier: “É o mesmo que dizer que o goleiro Bruno deveria ser preso, mas só depois do término do Brasileirão”. Quem votou “sim” na quarta-feira, votou contra 96% do povo brasileiro. Isso, até os 4% se darem conta do estrago.

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