ANO: 24 | Nº: 6084

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
05/08/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Jorge Luís Borges em Bagé

No dia 14 de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar da fábrica de tecidos, encontrou uma carta vinda do Brasil, pela qual soube que seu pai tinha morrido. Enganaram-na o selo e o envelope, mas inquietou-se pela letra desconhecida. Nove ou 10 linhas mal traçadas quase enchiam a folha.
“Emma leu que o senhor Maier tinha ingerido por engano uma forte dose de veronal e tinha falecido a 3 do corrente no hospital de Bagé. Um companheiro de pensão de seu pai assinava a notícia, um tal Fein ou Fain, de Rio Grande, que não podia saber que se dirigia à filha do morto”.
Assim começa um dos melhores contos do buenairense J.L. Borges, “cujo argumento esplêndido, tão superior a sua tímida execução, foi-me dado por Cecília Ingenieros”, diz o autor no epílogo de seu “O Aleph”. Não é a única vez que Borges refere a algo ou cidade do Rio Grande; ou do Uruguai, aqui porque, de seus quatro avós, três nasceram na Banda Oriental.
Sua “História de Ginetes” relata a vida de estancieiros e tropeiros uruguaios de Passo de los Toros, ou platinos, que não se adaptam à vida urbana, sustentando que os que se dedicam à pecuária realizam obra menos valiosa que os agricultores, pois do lavrador provém a palavra “cultura” e das cidades o termo “civilização”, como sublinha em “Evaristo Carriego”; um de seus personagens, Funes, se identifica com um rapaz que mora em Fray Bentos (Ficções)*, ; na mesma obra e em Tacuarembó transcorrem narrativas como “A forma da espada”; “O morto” se desenrola perto de Rivera, na fronteira com o Brasil, onde pontificam contrabandistas; e o personagem, Azevedo Bandeira, nascido em Quarai, morre de balaço nos confins do Rio Grande do Sul (O Aleph); em “A espera” o homem guarda no bolso um vintém oriental desde a noite que passara num hotel de Melo (O Aleph).
Os avós orientais de Borges eram o coronel Francisco Isidro Borges Lafinur, de Montevidéu; Leonor Suárez Haedo, nascida em Mercedes; e Isidoro Acevedo Laprida, de São Nicolau de Arroios; a avó restante, Frances Anne Arnelt, era inglesa, origens que explicam não só a universalidade da cultura borgeana, mas principalmente seu afeto às coisas do Rio da Prata.
Leonor Haedo faleceu em Genebra, em 1918, durante uma viagem de Borges ao Velho Mundo, ao término da Primeira Grande Guerra. Fala-se que ainda menino o escritor passava férias, junto com sua irmã Norah, em estância de Fray Bentos, onde era acompanhado por Esther Haedo, casada com Henrique Amorim, local com mirador, escada em caracol e vidros coloridos, imagens que povoam muitos de seus relatos junto com os tigres, espelhos e labirintos.
Embora o ficcionista possa situar roteiros e pessoas em lugar que conheça ou que simplesmente retira de mapa, mostra-se possível que, havendo em Bagé uma lomba rural denominada “Coxilha do Haedo” não muito distante da fronteira uruguaia, Jorge Luís Borges tenha visitado tal distrito nos folguedos juvenis gozados na propriedade de algum Haedo, seu ancestral.
Isso explica o fato do pai de Emma Zunz ter morrido em hospital desta paragem.

(*) Fray Bentos é capital do departamento de Rio Negro, limitando com a Argentina e o Brasil; é Patrimônio da Humanidade por ilustrar o processo de produção de carne em escala global mediante suas construções residenciais e industriais, bem como por sua localização física e instituições sociais.

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