ANO: 23 | Nº: 5813

Dilce Helena dos Santos

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
08/08/2017 Dilce Helena dos Santos (Opinião)

O medo de falar em público

Medo de falar em público é um assunto que sempre aparece no meu dia a dia, não só por ser psicóloga, mas, principalmente, por minha atuação na direção teatral e nos trabalhos realizados com exercícios em artes cênicas. Por isto, resolvi, com algumas revisões, republicar a coluna que fala neste tema.
O medo de falar em público é bastante comum, considerado até mesmo natural. Afinal, quem se sente totalmente à vontade tendo uma plateia à espera de suas palavras?  Porém, entre sentir um desconforto ou ansiedade moderada e entrar em pânico existe uma brutal diferença. Se você sente calafrio, suor excessivo, coração disparado, tontura, enjoo, aperto no peito e/ou vontade de sair correndo quando ouve o próprio nome em sala de aula ou quando tem que emitir sua opinião ao grupo de colegas de trabalho, entre outros sinais corporais de grande ansiedade, talvez esteja na hora de procurar recurso apropriado.
Nossa vida está baseada na vivência em sociedade, por mais sozinho que seja o ser humano, sua capacidade de comunicação é uma habilidade que, em maior ou menor desenvolvimento, surge muitas vezes como uma necessidade ou uma carência.
Esta vida social exige muitas vezes que a comunicação verbal flua livremente e quem sente um bloqueio emocional para tal ação costuma pagar caro por isso. Pois uma autoavaliação ou breve apresentação podem parecer uma muralha intransponível a tal ponto que alguns chegam a abandonar a escola ou a oportunidade de conquistar novos postos de trabalho a fim de evitar a exposição a nível tão alto de ansiedade e desconforto. Aquele que sente dificuldade para se expressar diante de outros sofre bastante e despende muita energia para fugir ou driblar as situações de exposição que, para ele, são consideradas uma grande ameaça a sua segurança interna.
Quem não vive a mesma situação costuma menosprezar o problema - o que não é justo, uma vez que é uma aflição capaz de levar a grandes sofrimentos pelas oportunidades perdidas e aspirações frustradas ao longo de uma vida.
Quanto mais cedo for detectado o problema, melhor a oportunidade de resolvê-lo, pois não se trata de timidez, mas, sim, de uma grande tensão e sensação de impossibilidade em lidar com o desafio de falar para qualquer público. Muitas vezes, apenas duas ou três pessoas diferentes do núcleo familiar ou de amizade já são o suficiente para instaurar o pânico.
São várias as questões que podem levar à dificuldade de falar em público, entre elas estão: problemas relacionados à autoaceitação de si como um todo, da própria voz ou da imagem; baixa autoestima; inseguranças envolvendo a capacidade pessoal para assumir responsabilidades e traumas do passado, principalmente da infância.
Como em qualquer outro sofrimento, o início da solução é admitir a dificuldade. Enquanto a estratégia for a fuga, nada se resolve, pelo contrário, o sentimento de inadequação e frustração só fazem aumentar a imagem negativa que o sujeito tem de si mesmo. Portanto, admitir que está diante de uma dificuldade e procurar compreendê-la é o começo de sua resolução.
Há muitas formas de abordagem em psicoterapia para o pânico de falar em público. O essencial é uma boa avaliação feita por profissional capacitado para o entendimento de quais mecanismos estão envolvidos na questão e também definição juntamente com o paciente da melhor forma de enfrentamento. Por exemplo, há quem descubra em psicoterapia que rejeita a si mesmo por considerar sua voz inadequada. Aí é o caso para uma avaliação com fonoaudiólogo para determinar o número de sessões e exercícios específicos para a superação desta ideia que, sem acompanhamento adequado, continuaria a ser uma barreira. Algumas pessoas podem tirar grande proveito do convívio com pequenos grupos terapêuticos onde o enfrentamento vai se dando aos poucos e de forma controlada. Existe a possibilidade de outras técnicas como as de teatro, desinibição, exercícios de oratória ou simplesmente psicoterapia focalizada na dificuldade apresentada.
O mais importante é um bom diagnóstico e a perseverança no treino de novas habilidades, que aos poucos vão fortalecer a autoestima e autoconfiança, forjando novas formas de enfrentamento da dificuldade para que a história pessoal não se desenvolva em torno desta limitação.

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