ANO: 23 | Nº: 5813

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
10/08/2017 João L. Roschildt (Opinião)

A pedagogia dos intelectuais

Bolívar Lamounier, ao tratar dos papéis que os intelectuais ocupam em sociedade, cunhou três tipos: o tribuno, o profeta e o sacerdote. O primeiro busca realizar a justiça por meio da defesa de indivíduos, grupos sociais ou instituições; o segundo “apresenta-se como portador de uma mensagem de salvação” ao sugerir reformas ou revoluções; já o terceiro tem por objetivo manter a pureza das ideias ao defender a correta interpretação de sua linha ideológica. Mas, como acrescenta Lamounier, “o intelectual não é um Robinson Crusoé”. Em suma, ele necessita de um espaço próprio para o desempenho de suas ideias. No mundo contemporâneo, esse ambiente divide-se entre atividades politicamente engajadas e uma proximidade com práticas educacionais. Ambas conferem status e prestígio social.

Ademais, para Thomas Sowell, o intelectual não está preocupado com as consequências de suas ideias e nem é avaliado por isso; afinal, quase sempre, é julgado por pares que comungam de suas visões, independentemente dos resultados práticos daquelas teorias. Esse traço distintivo com relação às demais profissões (basta pensar em como as ideias de um designer de sites são julgadas por seus resultados concretos) outorga aos intelectuais a possibilidade de afirmar verdadeiras asneiras, passando ilesos de críticas racionais, mormente em ambientes academicamente centrados, aqueles em que a carreira depende da aprovação de pares igualmente intelectualizados. É um círculo muito vicioso.

Na semana passada, em Bagé, ocorreu o lançamento nacional do livro “Desconstruindo Paulo Freire”, organizado por Thomas Giulliano e que conta com um artigo do padre Cléber Eduardo dos Santos Dias. A obra, uma contundente, racional e precisa crítica sobre os equivocados métodos educacionais freireanos, apresenta ótimas análises sobre o pensamento daquele que é considerado o patrono da educação brasileira e que é amplamente adotado nas nossas escolas e universidades. Mas como os envolvidos nesse projeto ousaram criticar um intelectual acima de qualquer suspeita? Ora, se o Brasil tem um patrono e se ele é adotado e louvado por nossos educadores, por qual razão os resultados práticos nas avaliações internacionais e nacionais de nossos alunos são tão pífios? Em suma, desnudar a prática de teorias que passaram incólumes por anos, talvez seja a grande descoberta da obra e o grande choque para todos aqueles intelectuais/educadores que não compareceram ao evento.

Em um tempo em que o sucesso é medido pelo número de curtidas em redes sociais, o lançamento do livro realmente não obteve sucesso algum. A procura por um autógrafo ou por uma conversa em carne e osso com os envolvidos foi ridícula perto da magnitude da proposta. Mas tudo isso tem algo de curioso. Na obra “Pedagogia da autonomia”, Paulo Freire (o profeta) diz que a curiosidade e a pesquisa são características essenciais aos professores. Por qual razão, então, os professores (tribunos e sacerdotes) ideologicamente atrelados à maneira freireana de ver o mundo deixaram de cumprir os ditames de seu mentor ao sequer comparecerem ao evento? Entendo! Como intelectual, ele está protegido das suas consequências. Avaliar um educador revolucionário pelos seus resultados práticos no ensino nacional seria desumano. Seria o mesmo que desconstruir Paulo Freire.

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