ANO: 23 | Nº: 5789

Fernando Risch

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Escritor
11/08/2017 Fernando Risch (Opinião)

Não me chame de bicha que eu me ofendo

Na minha infância, num passado grotescamente mais machista e homofóbico que a sociedade atual, não existia pior xingamento para um homem que ser chamado de bicha. Era a maior humilhação para o sujeito masculino ser tachado da palavra que, àquela época, vinha carregada com o poder de fragilizar um ser homem na sua essência.

Então eu fui crescendo, fui estudando, aprendendo e, em certo momento, aquilo parou de fazer sentido. Na faculdade, na vida, eu fui conhecendo alguns homossexuais e, ao nos tornarmos amigos, percebi que eu jamais poderia me ofender com uma palavra que define o que eles são por natureza. Tampouco que, um machista e homofóbico desde criancinha como eu, poderia voltar utilizar qualquer termo referente à comunidade LGBT como uma ofensa. Quando se gosta de alguém, nós a protegemos e não permitimos que qualquer mal afete essa pessoa. E eu evoluí.

Assim eu conheci o elemento mais frágil de toda a história da humanidade: a masculinidade. Esse objeto, erguido como lança por varões intocáveis e inquebrantáveis, só serve para mascarar dúvidas deles próprios. Por que alguém se ofenderia por ser chamado de homossexual? Só por uma razão: por ter medo de ser gay e que as outras pessoas descubram. Não que ser gay seja errado, mas para um homofóbico é como se fosse a condenação da própria virilidade – e, claro, para eles, seria errado.

Mas o engraçado é que isso só ocorre quando há dúvida, quando a pessoa não está certa de quem ela realmente é e do que ela realmente gosta. Vive aprisionada em um mundo de fantasia, com um avatar de macho alfa sendo usado como escudo para não encarar a realidade dos fatos e libertar-se para o que realmente é e ser feliz. E assim se constrói uma sociedade preconceituosa: de indivíduos covardes e rancorosos, que não sabem quem realmente são e querem dizer como os outros devem ser.

Portanto, caro leitor, depois de tudo que aprendi nessa vida, hoje não me preocupo se alguém sugere qualquer coisa ao meu respeito. Mas, ainda assim, não me chame de bicha, que eu vou me ofender. Não pelos motivos citados acima, mas pela ofensa de ter ouvido uma palavra ser utilizada da forma errada, como um defeito ou uma maldição, para algo que simplesmente é normal, quer você queira ou não.

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